Não deixem de ler este fabuloso texto sobre o Acordo Ortográfico.
"Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam .
Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros .
Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas .
É um fato que não se pronunciam .
Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se ?
O que estão lá a fazer ?
Aliás, o qe estão lá a fazer ?
Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade .
Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra .
Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s” ?
Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç” .
Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som .
Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s” .
Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z” .
Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z” .
Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k” .Ponha um q.
Não pensem qe me esqesi do som “ch” .
O som “ch” será reprezentado pela letra “x”.
Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não ?
O “x” xama-se “xis”.
Poix é iso mexmo qe fiqa .
Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x” .
Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex .
Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex .
O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural .
No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente .
Vejamox o qaso do som “j” .
Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu?
Para qê qomplicar ? ! ?
Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j” .
Serto ?
Maix uma letra mud
a qe eliminamox .
É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem !
Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex ?
Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade ?
Outro problema é o dox asentox.
Ox asentox só qompliqam !
Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox .
A qextão a qoloqar é: á alternativa ?
Se não ouver alternativa, pasiênsia.
É o qazo da letra “a” .
Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado .
Nada a fazer.
Max, em outrox qazos, á alternativax .
Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô” .
Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso !
qe é qe temux o “u” ?
Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil !
Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.
Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza :
quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e” .
U mexmu para u som “ê” .
Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i” .
I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a” .
Sempre. Simplex i sem qompliqasõex .
Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx” .
Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.
Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu .
Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum ? "
Maria Clara Assunção
via
http://abibliotecadejacinto.blogspot.com/2009/08/o-acordo-ortografico-e-o-futuro-da.html
O nosso caminho não é de relva suave, é um trilho de montanha pejado de muitas pedras. Mas segue em frente, para cima, rumo ao Sol. E encontrarás a serenidade. Ruth Westheimer
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quinta-feira, 1 de março de 2012
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Martin Luther King, Jr
“I mourn the loss of thousands of precious lives, but I will not
rejoice in the death of one, not even an enemy. Returning hate for hate
multiplies hate, adding deeper darkness to a night already devoid of
stars. Darkness cannot drive out darkness: only light can do that. Hate
cannot drive out hate: only love ca...n do that.”
— Martin Luther King, Jr."
rejoice in the death of one, not even an enemy. Returning hate for hate
multiplies hate, adding deeper darkness to a night already devoid of
stars. Darkness cannot drive out darkness: only light can do that. Hate
cannot drive out hate: only love ca...n do that.”
— Martin Luther King, Jr."
Strickland Gillian
"You may have tangible wealth untold; caskets of jewels and coffers of gold. Richer than I you can never be. I had a mother who read to me."
Strickland Gillian
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Jean-Marie Lustiger
"The problem of faith in God is not one of knowing whether there is an unknown object one can call God and whose probable existence can be demonstrated... The problem of faith is to accept that to discover God human beings have to situate themselves differently in relation to themselves, to the world, and in relation to the one they do not know." Jean-Marie Lustiger
quarta-feira, 30 de março de 2011
...começa por pintar a tua aldeia
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNkRjFTdhH2-jDZ4FvtpNE6RXhI0ZdLC1_gK4ZQqVZihHCYSzAxtuKdSueF5eepJNxa0FADvTJ0kEk6uhApaQBMqorIMyefkuK81eTiDaSPc_27IR27jFkmrkw7fn_olqODS_1PmxOXU39/s1600-h/re_tolstoi3.jpg "Leon Nicolaievitch Tolstoi: 28/08/1828 - 07/11/1910 Vindo de família tradicional aristocrata russa, orfão de mãe (1830) e pai (1837), criado por duas tias, estudou letras orientais e direito, casado com Sofia Andrievna Bers, treze filhos, ocidentalista confesso, excomungado pela Igreja Ortodoxa (1901), preocupado com a situação do povo russo, insatisfeito quanto ao czar, adepto da simplicidade como modo de viver, sempre buscando respostas sobre o real sentido da vida. Este é Tolstói, ou melhor, um pouco (muito pouco) sobre ele." Citações, Frases e Fragmentos "Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas." "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia." "Está em meu poder servir a Deus ou não o servir. Servindo-o, acrescento ao meu próprio bem e ao bem de todo o universo. Não o servindo, abro mão do meu próprio bem e privo o mundo do bem que estava em meu poder criar." "Não existe grandeza onde não há simplicidade, bondade e verdade." "O homem que desempenha um papel nos acontecimentos históricos jamais lhes compreende o significado". "Quando as pessoas falam de forma muito elaborada e sofisticada, ou querem contar uma mentira, ou querem admirar a si mesmas. Ninguém deve acreditar em tais pessoas. A fala boa é sempre clara, inteligente e compreendida por todos." "Antes de dar ao povo sacerdotes, soldados e maestros, seria oportuno saber se ele não está morrendo de fome." "Não se vive sem fé. A fé é o conhecimento do significado da vida humana. A fé é a força da vida. Se o homem vive é porque crê em algo." "É mais fácil escrever dez volumes de princípios filosóficos que por em prática um só deles." "Cada um pensa em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar-se a si mesmo." "A tristeza pura e completa é tão impossível quanto a felicidade, pura e completa." "Durante 35 anos fui, na acepção própria da palavra, um niiilista, não um socialista revolucionário, mais um homem que não cria em nada. Faz cinco anos que a fé aconteceu na minha vida. Eu passei a crer na doutrina de Jesus e toda minha vida sofreu uma transformação repentina... A vida e a morte deixaram de se reunir; em vez de desespero, experimentei júbilo e felicidade que a morte não pode tirar-me." "Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres que aquele que conheceu mil." E para finalizar: "Um Homem em seu leito de morte decidiu despedir-se dos seus três melhores amigos: O Dinheiro, a mulher e as suas boas obras. O Primeiro a falar com o moribundo foi o dinheiro: - Amigo estou morrendo, disse o moribundo - Não se preocupe, amigo, quando morreres acenderei uma vela para ti. O Proximo Amigo que entrou no quarto foi a sua mulher: - Amor morro, disse o moribundo - Não se preocupe querido quando morrer te conduzirei até o cemitério Em seguida entrou o seu terceiro amigo as boas obras. -Amigo, se viveres viverei, se morreres morrerei contigo. Então Horas depois o Moribundo morre... O Dinheiro cumpriu sua promessa e acendeu uma vela, sua esposa o conduziu até o cemitério e suas obras o acompanharam na vida e na morte." via http://cartesianofinito.blogspot.com/
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Marketing Pessoal...
http://www.mymarketing.pt/portal/
Excertos da participação de personalidades no livro Marketing Pessoal. És um produto de sucesso?
"1) Tenha os olhos, a mente e todos os sentidos abertos; 2) Compreenda o estranho, o exterior, o que é do outro; 3) Julgue menos para ser menos julgado; 4) Não fuja da difícil tarefa de se expor; 5) E, principalmente, não tenha medo de ser e de fazer alguém feliz." Edson Athayde
"O Marketing Pessoal acontece quando somos reconhecidos pelo conteúdo da nossa mensagem, pelos princípios e expectativas que transmitimos. Quando sabemos o que esperam de nós, podemos aprofundar e aperfeiçoar estratégias e conceitos."
Rui Nabeiro
"Para conquistar uma medalha olímpica temos que dar o melhor de nós, teremos que dar também o melhor de nós se quisermos alcançar muitas das metas da nossa vida!" Nélson Évora
"Desafiava todos quantos lerem este livro a reflectir sobre a seguinte questão: É possível uma vida pessoal “perfeita” se não nos preocuparmos com a harmonia da sociedade em que nos inserimos? Não queremos todos nós uma sociedade à nossa imagem? Se sim, como nos estamos a empenhar para tal?"
Luisa Nemésio
Excertos da participação de personalidades no livro Marketing Pessoal. És um produto de sucesso?
"1) Tenha os olhos, a mente e todos os sentidos abertos; 2) Compreenda o estranho, o exterior, o que é do outro; 3) Julgue menos para ser menos julgado; 4) Não fuja da difícil tarefa de se expor; 5) E, principalmente, não tenha medo de ser e de fazer alguém feliz." Edson Athayde
"O Marketing Pessoal acontece quando somos reconhecidos pelo conteúdo da nossa mensagem, pelos princípios e expectativas que transmitimos. Quando sabemos o que esperam de nós, podemos aprofundar e aperfeiçoar estratégias e conceitos."
Rui Nabeiro
"Para conquistar uma medalha olímpica temos que dar o melhor de nós, teremos que dar também o melhor de nós se quisermos alcançar muitas das metas da nossa vida!" Nélson Évora
"Desafiava todos quantos lerem este livro a reflectir sobre a seguinte questão: É possível uma vida pessoal “perfeita” se não nos preocuparmos com a harmonia da sociedade em que nos inserimos? Não queremos todos nós uma sociedade à nossa imagem? Se sim, como nos estamos a empenhar para tal?"
Luisa Nemésio
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
“ É a causa da Liberdade”
O Homem que oferecia rosas, inédito, excertos
"João dos Reis nada entendia de política. Aliás, quando viera para a grande cidade e antes da partida, o padrinho aconselhara-o com brandura na voz mas com firmeza: “João, se queres chegar longe na carreira, nunca te metas em política! Afasta-te dela. Sempre!”
João ficara então com a ideia que essa tal política deveria ser uma espécie de prostituta que nunca tomava banho e que, segundo ouvira dizer, por lhe apodrecer a rata, pegava horríveis infecções e inflamações ao descuidado que com ela se metesse. A verdade é que para além desta ideia aberrante que o padrinho lhe enfiara no subconsciente não sabia o que era política. Na dependência bancária onde trabalhava ouviu diversas vezes alguns colegas aludirem à conquista do sindicato mas também desconhecia esta palavra e portanto ignorava se era ou não política. Outras vezes ouvia falar em liberdade. Esta palavra já era sua conhecida. Prezava-a muito. Achava por exemplo que os pássaros do campo a tinham. Mas ignorava se era ou não política, e se o fosse, se os pássaros, inclusive os da aldeia do padrinho, seriam afinal políticos embora ninguém por lá tivesse dado conta de tal facto.
Um belo dia de manhã disseram-lhe que estavam em greve. João admirou-se e perguntou a um colega mais velho que à socapa entregava uns papéis onde se falava de liberdade e do sindicato e dessa palavra - greve - que ignorava o que fosse. Disseram-lhe então que fazer greve era não trabalhar por uma causa justa. Perguntou que causa era essa. E responderam-lhe: “É a causa da Liberdade”. João dos Reis gostou da resposta. Ele sempre fora pela Liberdade. Nunca pássaro algum que lhe viesse dar às mãos, qualquer que fosse a razão, conhecera cativeiro de gaiola.
- Pois se é pela Liberdade eu também sou pela greve!
Foi assim que João dos Reis se viu numa rua da Baixa, na grande cidade, reclamando Liberdade para toda a gente, para os pássaros nos campos, para os canários e periquitos, e para os bancários, pois claro!
Julgou que tudo fosse uma festa e gostou. As pessoas que passavam na rua também pareciam gostar. Juntavam-se a eles e era maior o coro que gritava: Liberdade!
Estavam nisto pela manhã, e o Sol brilhava que dava gosto, quando na praça grande, aquela aonde a rua desaguava, se viram chegar mais de uma dúzia de grandes camionetas azuis. Alguém gritou em pânico: “É a polícia!”. João admirou-se. Que raio! Também eles viriam para a festa da Liberdade?
Não tardou muito a perceber que se tinha enganado redondamente. Afinal não vinham para a festa, pelo menos para a mesma festa onde João imaginara estar. Vieram correndo rua abaixo o que por si só não quereria dizer nada. Toda a gente anda apressada quando caminha para os festejos. O capacete com viseira, o bastão agitando-se no ar, os cães de ar feroz, os escudos faiscando ao sol, é que o convenceram de que se tinha enganado. Ora, ninguém vai assim para uma festa. Quando atingiram o meio da rua onde os bancários clamavam: “Liberdade! Liberdade!”, eles fizeram-lhe a vontade e malharam livremente em tudo quanto se mexia e tinha cabeça.
Os transeuntes, assustados, fugiam em todas as direcções, tal como o povo da Aldeia da Pinha quando um foguete preguiçoso resolvia estralejar em terra em lugar do céu para onde o haviam enviado momentos antes. Mas quanto mais fugiam mais se assemelhavam às serpentes do José Apolinário escorregando por peitoris de janelas e pelos poiais das portas, e mais cada um dos polícias se transfigurava na figura do mocetão tresloucado decepando répteis a golpes certeiros de machado.
João dos Reis não entendeu semelhante loucura mas via-lhes os olhos cruéis e frios de punhal iguais aos do retrato do avô Carranca e pensou que se a greve era por uma causa justa, a causa da tal Liberdade, também aquela loucura teria uma razão, embora ignóbil, uma causa, se bem que injusta. Desde esse dia decidiu que seria político e sindicalista, mas com cuidado, para que lhe não acontecesse o mesmo que ao Malaquias, a quem a “Secreta” apreendera todos os livros e selara a gaita, tornando-a inofensiva.
A adesão de João dos Reis à prática sindical e à política, em nome da causa da Liberdade, olvidado que ficara dos sábios conselhos do padrinho de baptismo e mais tarde de crisma, o engenheiro Pedro Mendonça, levou-o a ganhar uma nova dimensão para apreciar as pessoas e as coisas, os homens e as mulheres, os bichos e as bichas, e até para se aperceber da marca de classe que a loucura, nas diferentes matizes, necessariamente tem.
Nunca João dos Reis se lembrara tão pouco de Gabriela. A solidão dos primeiros meses na grande cidade despertara-lhe o desejo de companhia e agora que a tinha não a dispensava por nada. Nem sequer ocupava o pensamento em doces recordações. Deixara em repouso, hibernando, a rota que desde sempre lhe dera sentido à vida e o norteara nos seus ainda escassos anos de vida: a busca da estrela dos seus sonhos. Estabelecera amizade com o Lucas e com a Luciana, com o Picanço e com a Cotovia, seus colegas de Banco, a quem não esquecia por muita coisa, e, sobretudo, por o terem levado à descoberta dos mais felizes recantos nos festejos da grande cidade.
Formavam pares interessantes. Lucas era gorducho, excessivamente gordo, e tinha uma cara de velho precoce já que a sua idade não ia para além dos vinte e cinco anos. Ria muito e gabava-se de não ter ido para a tropa por falta de farda que lhe servisse.
O Picanço, por sua vez, assemelhava-se mais a uma ave pernalta de pernas anormalmente compridas do que ao pássaro a quem roubara o nome. Se o Lucas se safara da tropa por ser mais gordo do que convinha aos serviços de fardamento do exército, Picanço não terá sido chamado a cumprir o serviço militar para evitar motivos de chacota que seriam evidentes nas paradas das forças armadas em que participasse. A maior das calças verdes azeitona fabricada pelos serviços de fardamento não chegaria para lhe cobrir as canelas. Daí o terem-no dispensado sem reservas ou condições. A Cotovia, namorada do Picanço, tinha o condão de o fazer parecer ainda mais gigante tão pequena e insignificante ela era. Chegar-lhe-ia à braguilha, se usasse sapatos rasos. Ao umbigo, se utilizasse, coisa que nunca lhe foi vista, um par de sapatos de salto alto.
Moravam os quatro num apartamento alugado na zona norte da grande cidade, quase no limite, ali onde as construções de cimento findavam e no horizonte próximo, como excreções urbanas, se erguiam bairros sujos e fétidos, ameaçadoramente escuros, estranho amontoado de casas sem nexo, paredes desconjuntadas em tábuas de madeira velha e carcomida, tectos de cores bizarras constituídos por várias camadas de latas espalmadas.
João dos Reis saía do Banco às cinco, passava pelo quarto do sótão onde tomava um banho rápido e, de eléctrico ou de autocarro, rumava à casa dos seus amigos, usando de toda a prudência de que era capaz. Lucas dissera-lhe para ter cuidado, que seria perigoso para todos ser descoberta a actividade que os envolvia por inteiro nas horas livres. Segundo ele, quem não fosse do sindicato nacional e desenvolvesse actividade sindical só poderia ser comunista. Achou tudo muito estranho e quis saber o que era isso de ser comunista.
Foi Picanço quem lhe começou a explicar a essência de tal palavrão. Mas fê-lo com voz tão baixa, parecia ter medo de que as paredes o ouvissem, que João dos Reis não entendeu nada. A Cotovia disse-lhe então que o comunismo era uma ideia, uma maneira de ver as coisas, que havia quem sonhasse por um mundo livre, sem ricos e sem pobres, onde todos fossem iguais. João continuou sem entender mas a alusão ao sonho fê-lo dizer que conhecera um amigo assim, capaz de sonhar, que se chamava Malaquias, e que dele, infelizmente, nunca mais soubera. Foi a vez de Luciana lhe revelar que também tinha muitos amigos assim: que eram capazes de sonhar, e que um dia, sem se saber como, também tinham desaparecido. E que nunca mais deles se soubera. João dos Reis falou-lhes da Aldeia da Pinha, do Texana e do José Apolinário, e quis saber se na grande cidade, ou noutras grandes cidades por esse mundo fora, também existiriam loucos como eles. Pressupunha que sim, pelas amostras do que pudera observar desde que à grande cidade chegara. Faltava-lhe conhecimento para ter certezas. Foi de novo o Picanço quem agarrou no fio da meada. De todos era o mais conhecedor de História; não admira portanto que lhe dissesse: “Há diversos tipos de loucos; e de loucura. Deixemos de lado a loucura individual, como a que te foi revelada pelo teu Texana, ou por esse tal José Apolinário. A loucura que conta é aquela que é posta ao serviço dos interesses de uma classe.”
João dos Reis ficou siderado. Jamais lhe ocorrera que pudesse haver assim tanta profundidade dentro da loucura. Picanço reparou no ar incrédulo do amigo e sem qualquer paternalismo de entendido na matéria prosseguiu pausadamente, ao jeito de quem conta uma história:
- Era uma vez um obscuro sargento do exército de um grande país europeu, talvez o maior de todos, não sei bem. O povo dessa nação vivia em grandes dificuldades. Um constante pesadelo. Cada mês um mar de tempestades. Em cada novo dia, sempre uma nova procela. O dinheiro não chegava para metade dos dias do mês mais pequeno e o desemprego alastrava em massa e invadia a maior parte dos lares, assim como as marés vivas de Setembro que inundam os arrabaldes das praias, para já não falar das roupas que engole aos banhistas desprevenidos que assam à torreira do sol. E no entanto era um país muito rico.
- Mas se era um país muito rico, porque tinha tantos pobres e desempregados? - admirou-se João dos Reis.
Picanço, que não se sentiu seguro para dar explicação conveniente, fingiu não ouvir a pergunta e prosseguiu:
- Então o sargento, que era um louco varrido e ainda para mais sedento de poder, acompanhado por outros loucos varridos igualmente sedentos de poderio e de grandeza, inventou a teoria de que o mundo tinha duas espécies de seres humanos, os puros e os impuros. Seriam puros todos os naturais do seu país que não fossem comunistas, nem anarquistas, nem judeus, nem ciganos, nem pretos, nem…, falta-me o termo exacto, olha, que não fossem loucos felizes como tu dizes ser o tal Texana. Vai daí mataram milhões de homens em nome da pureza da sua raça. Mas o mais estranho é que se aliaram no mundo com outros países onde os homens até têm cor de gema de ovo deslavada, o que só quer dizer que a teoria da pureza da raça é uma grande treta. Como vês a loucura do sargento esconde na verdade uma questão mais profunda.
- O quê? - disparou João dos Reis.
- O poder da grande finança que apoiou e deu força ao louco. É por isso que eu te digo que a loucura, ouve bem, a loucura que mais conta na realidade social, não é independente da luta de classes - rematou o Picanço e fechou-se de imediato em copas para que mais tempo perdurasse a sua frase de mestre.
João dos Reis sentiu uma profunda tristeza. Do conhecimento que até aí possuía sobre os loucos, pesando nos dois pratos da balança, os infelizes e violentos por um lado, e no outro os babados e felizes, ainda era para estes últimos que o fiel pendia. Contudo, a história relatada por Picanço viera baralhar tudo na sua mente. Um louco sanguinário, como esse tal sargento, desequilibrara completamente o fiel da balança para o lado trágico. Talvez por isso, um pouco a medo, atreveu-se a perguntar:
- Então, e nessa perspectiva da luta de classes, não há loucos do outro lado?
Ficou feliz por Picanço lhe ter dito que sim. O amigo pôs-se então a falar destes loucos. Contou a história de homens ainda novos, iguais a eles, sem tirar nem pôr, e que um dia decidiram deixar tudo, emprego, mulher, filhos, família, casa, carro, cão e gato, e que até de nome mudaram para lutar pela Liberdade. Vivem em esconderijos, sempre a fugir, mudando constantemente de poiso para que a “Secreta” os não apanhe. De vez em quando há um que cai nas mãos da polícia; mas a boca fecha-se e nem às piores torturas ela se abre para denunciar os companheiros.
- Pois é. São mesmo loucos! - foi espanto tudo quanto assomou ao olhar de João dos Reis pois esta loucura nada tinha que ver com todas as que conhecera até então.
- São. São loucos. Mas da loucura que dá asas ao sonho e à Liberdade!
Jacinta, abalada com a partida de João, embora desde há muito suspeitasse que mais dia menos dia ela acabaria por acontecer, encontrou finalmente o arquétipo do seu falecido marido. Bem o merecia, pois Jacinta, sendo desde há muito um fruto maduro, conservava ainda as cores, a polpa e o sumo que tornam saborosas as frutas.
Encontrou-o na esplanada do costume, enquanto falava de novo sozinha.
Artur Santos entretinha-se a dar de comer aos pombos que lho vinham buscar à mão. Este primeiro facto fizera calar Jacinta e pô-la em alvoroço; não toda ela; sobretudo o seu coração.
Depois Artur começara a falar com as aves e tal acontecimento despertou-lhe a memória adormecida, a caixa secreta onde guardara as mais doces lembranças da personalidade do defunto.
Quando Artur Santos se pôs a distribuir moedas por um bando de garotos da rua e lhes disse: “É para gelados”, Jacinta arrepiou-se toda e experimentou com emoção a surpresa de lhe parecer ter a seu lado, finalmente, o sonho que a perseguira desde há mais de vinte anos.
A última vez que supusera reencontrar em vida a réplica do falecido marido fora ao conhecer João dos Reis. Precipitara-se. Daí o engano. Agora algo lhe dizia que não repetiria o erro. Artur Santos não era apenas ele. Era ele e o outro. Melhor ainda. Era o outro, o defunto, feito ele. Os detalhes neste caso pouco interessam. O que é certo é que passado um mês, Jacinta e Artur Santos, estavam juntando os trapinhos.
Jacinta desta vez não se enganaria. Voltara a viver como gostava, enleada num amor que a prendia completamente, e com o qual ela prendia Artur da mesma forma, livremente obsessiva, conscientemente absorvente; mas eram felizes porque ambos assim gostavam de se amar e nem sequer saberiam viver de um outro modo. Jacinta aprendera à sua custa que não valia a pena mostrar-se como não era; nem nunca seria capaz de ser; ou a aceitavam com as suas qualidades - que teria muitas - e com os seus defeitos - que também teria alguns, como todos os têm - ou nada feito.
Tratou pois de pôr os pontos nos is a Artur Santos: “Far-te-ei feliz, se jamais tiveres pensamentos fora de mim!”
Ora, por uma simples coincidência, Artur Santos pensava exactamente da mesma maneira, pelo que, pensando de imediato em voz alta, lhe disse: “Fica combinado! Nenhum de nós pensará sozinho. Pensaremos sempre alto por forma a que cada um saiba sempre o que o outro está pensando.”
Jacinta sentiu-se feliz e para evitar o paradoxo do impossível acrescentou: “Se algum de nós pensar quando estiver sozinho, mal nos encontremos, contaremos logo todos os pensamentos ocorridos, sejam eles quais foram.”
Não podiam ser mais felizes aqueles dois. Tão felizes que se habituaram a pensar como se uma só alma possuíssem e até nem lhes apetecia pensar na ausência um do outro, com receio de que depois não conseguissem, sem querer, reproduzir com exactidão tudo o que tinham pensado.
Mas, como tudo na vida, não há regra sem excepção. Os espíritos são difíceis de entender e nem sempre o estado do corpo ou a influência do exterior os deixava imunes aos pensamentos privados. Ora, se um violava de vez em quando a regra do pensamento a dois, e disso tinha absoluta consciência, era natural que admitisse que o outro também o poderia fazer; certamente que o faria. Surgiam momentos de desconfiança e então partiam a loiça. Jacinta esmurrava-lhe a cara e puxava-lhe pelas orelhas e pelos cabelos. Artur Santos não queria ficar atrás e largava-lhe um par de tabefes e uns empurrões nem sempre devidamente ponderados.
Depois de muita violência, normal e comum em casais que se amam desta forma tão intensa, e tão partilhada, apanhados os cacos, reparavam que não existia no chão qualquer fragmento de pensamento individual, e caíam nos braços um do outro. Abraçavam-se demoradamente, choravam e riam, o amor entre ambos crescia, e assim se ia fortalecendo."
José Murta Lourenço
José Murta Lourenço nasceu na aldeia de Estoi, concelho de Faro, em 2 de Dezembro de 1949. Licenciou-se em engenharia electrotécnica no final de 1977. É autor de já vasta e reconhecida obra literária.
via
http://manuelcarvalho.8m.com/lourenco0.html
"João dos Reis nada entendia de política. Aliás, quando viera para a grande cidade e antes da partida, o padrinho aconselhara-o com brandura na voz mas com firmeza: “João, se queres chegar longe na carreira, nunca te metas em política! Afasta-te dela. Sempre!”
João ficara então com a ideia que essa tal política deveria ser uma espécie de prostituta que nunca tomava banho e que, segundo ouvira dizer, por lhe apodrecer a rata, pegava horríveis infecções e inflamações ao descuidado que com ela se metesse. A verdade é que para além desta ideia aberrante que o padrinho lhe enfiara no subconsciente não sabia o que era política. Na dependência bancária onde trabalhava ouviu diversas vezes alguns colegas aludirem à conquista do sindicato mas também desconhecia esta palavra e portanto ignorava se era ou não política. Outras vezes ouvia falar em liberdade. Esta palavra já era sua conhecida. Prezava-a muito. Achava por exemplo que os pássaros do campo a tinham. Mas ignorava se era ou não política, e se o fosse, se os pássaros, inclusive os da aldeia do padrinho, seriam afinal políticos embora ninguém por lá tivesse dado conta de tal facto.
Um belo dia de manhã disseram-lhe que estavam em greve. João admirou-se e perguntou a um colega mais velho que à socapa entregava uns papéis onde se falava de liberdade e do sindicato e dessa palavra - greve - que ignorava o que fosse. Disseram-lhe então que fazer greve era não trabalhar por uma causa justa. Perguntou que causa era essa. E responderam-lhe: “É a causa da Liberdade”. João dos Reis gostou da resposta. Ele sempre fora pela Liberdade. Nunca pássaro algum que lhe viesse dar às mãos, qualquer que fosse a razão, conhecera cativeiro de gaiola.
- Pois se é pela Liberdade eu também sou pela greve!
Foi assim que João dos Reis se viu numa rua da Baixa, na grande cidade, reclamando Liberdade para toda a gente, para os pássaros nos campos, para os canários e periquitos, e para os bancários, pois claro!
Julgou que tudo fosse uma festa e gostou. As pessoas que passavam na rua também pareciam gostar. Juntavam-se a eles e era maior o coro que gritava: Liberdade!
Estavam nisto pela manhã, e o Sol brilhava que dava gosto, quando na praça grande, aquela aonde a rua desaguava, se viram chegar mais de uma dúzia de grandes camionetas azuis. Alguém gritou em pânico: “É a polícia!”. João admirou-se. Que raio! Também eles viriam para a festa da Liberdade?
Não tardou muito a perceber que se tinha enganado redondamente. Afinal não vinham para a festa, pelo menos para a mesma festa onde João imaginara estar. Vieram correndo rua abaixo o que por si só não quereria dizer nada. Toda a gente anda apressada quando caminha para os festejos. O capacete com viseira, o bastão agitando-se no ar, os cães de ar feroz, os escudos faiscando ao sol, é que o convenceram de que se tinha enganado. Ora, ninguém vai assim para uma festa. Quando atingiram o meio da rua onde os bancários clamavam: “Liberdade! Liberdade!”, eles fizeram-lhe a vontade e malharam livremente em tudo quanto se mexia e tinha cabeça.
Os transeuntes, assustados, fugiam em todas as direcções, tal como o povo da Aldeia da Pinha quando um foguete preguiçoso resolvia estralejar em terra em lugar do céu para onde o haviam enviado momentos antes. Mas quanto mais fugiam mais se assemelhavam às serpentes do José Apolinário escorregando por peitoris de janelas e pelos poiais das portas, e mais cada um dos polícias se transfigurava na figura do mocetão tresloucado decepando répteis a golpes certeiros de machado.
João dos Reis não entendeu semelhante loucura mas via-lhes os olhos cruéis e frios de punhal iguais aos do retrato do avô Carranca e pensou que se a greve era por uma causa justa, a causa da tal Liberdade, também aquela loucura teria uma razão, embora ignóbil, uma causa, se bem que injusta. Desde esse dia decidiu que seria político e sindicalista, mas com cuidado, para que lhe não acontecesse o mesmo que ao Malaquias, a quem a “Secreta” apreendera todos os livros e selara a gaita, tornando-a inofensiva.
A adesão de João dos Reis à prática sindical e à política, em nome da causa da Liberdade, olvidado que ficara dos sábios conselhos do padrinho de baptismo e mais tarde de crisma, o engenheiro Pedro Mendonça, levou-o a ganhar uma nova dimensão para apreciar as pessoas e as coisas, os homens e as mulheres, os bichos e as bichas, e até para se aperceber da marca de classe que a loucura, nas diferentes matizes, necessariamente tem.
Nunca João dos Reis se lembrara tão pouco de Gabriela. A solidão dos primeiros meses na grande cidade despertara-lhe o desejo de companhia e agora que a tinha não a dispensava por nada. Nem sequer ocupava o pensamento em doces recordações. Deixara em repouso, hibernando, a rota que desde sempre lhe dera sentido à vida e o norteara nos seus ainda escassos anos de vida: a busca da estrela dos seus sonhos. Estabelecera amizade com o Lucas e com a Luciana, com o Picanço e com a Cotovia, seus colegas de Banco, a quem não esquecia por muita coisa, e, sobretudo, por o terem levado à descoberta dos mais felizes recantos nos festejos da grande cidade.
Formavam pares interessantes. Lucas era gorducho, excessivamente gordo, e tinha uma cara de velho precoce já que a sua idade não ia para além dos vinte e cinco anos. Ria muito e gabava-se de não ter ido para a tropa por falta de farda que lhe servisse.
O Picanço, por sua vez, assemelhava-se mais a uma ave pernalta de pernas anormalmente compridas do que ao pássaro a quem roubara o nome. Se o Lucas se safara da tropa por ser mais gordo do que convinha aos serviços de fardamento do exército, Picanço não terá sido chamado a cumprir o serviço militar para evitar motivos de chacota que seriam evidentes nas paradas das forças armadas em que participasse. A maior das calças verdes azeitona fabricada pelos serviços de fardamento não chegaria para lhe cobrir as canelas. Daí o terem-no dispensado sem reservas ou condições. A Cotovia, namorada do Picanço, tinha o condão de o fazer parecer ainda mais gigante tão pequena e insignificante ela era. Chegar-lhe-ia à braguilha, se usasse sapatos rasos. Ao umbigo, se utilizasse, coisa que nunca lhe foi vista, um par de sapatos de salto alto.
Moravam os quatro num apartamento alugado na zona norte da grande cidade, quase no limite, ali onde as construções de cimento findavam e no horizonte próximo, como excreções urbanas, se erguiam bairros sujos e fétidos, ameaçadoramente escuros, estranho amontoado de casas sem nexo, paredes desconjuntadas em tábuas de madeira velha e carcomida, tectos de cores bizarras constituídos por várias camadas de latas espalmadas.
João dos Reis saía do Banco às cinco, passava pelo quarto do sótão onde tomava um banho rápido e, de eléctrico ou de autocarro, rumava à casa dos seus amigos, usando de toda a prudência de que era capaz. Lucas dissera-lhe para ter cuidado, que seria perigoso para todos ser descoberta a actividade que os envolvia por inteiro nas horas livres. Segundo ele, quem não fosse do sindicato nacional e desenvolvesse actividade sindical só poderia ser comunista. Achou tudo muito estranho e quis saber o que era isso de ser comunista.
Foi Picanço quem lhe começou a explicar a essência de tal palavrão. Mas fê-lo com voz tão baixa, parecia ter medo de que as paredes o ouvissem, que João dos Reis não entendeu nada. A Cotovia disse-lhe então que o comunismo era uma ideia, uma maneira de ver as coisas, que havia quem sonhasse por um mundo livre, sem ricos e sem pobres, onde todos fossem iguais. João continuou sem entender mas a alusão ao sonho fê-lo dizer que conhecera um amigo assim, capaz de sonhar, que se chamava Malaquias, e que dele, infelizmente, nunca mais soubera. Foi a vez de Luciana lhe revelar que também tinha muitos amigos assim: que eram capazes de sonhar, e que um dia, sem se saber como, também tinham desaparecido. E que nunca mais deles se soubera. João dos Reis falou-lhes da Aldeia da Pinha, do Texana e do José Apolinário, e quis saber se na grande cidade, ou noutras grandes cidades por esse mundo fora, também existiriam loucos como eles. Pressupunha que sim, pelas amostras do que pudera observar desde que à grande cidade chegara. Faltava-lhe conhecimento para ter certezas. Foi de novo o Picanço quem agarrou no fio da meada. De todos era o mais conhecedor de História; não admira portanto que lhe dissesse: “Há diversos tipos de loucos; e de loucura. Deixemos de lado a loucura individual, como a que te foi revelada pelo teu Texana, ou por esse tal José Apolinário. A loucura que conta é aquela que é posta ao serviço dos interesses de uma classe.”
João dos Reis ficou siderado. Jamais lhe ocorrera que pudesse haver assim tanta profundidade dentro da loucura. Picanço reparou no ar incrédulo do amigo e sem qualquer paternalismo de entendido na matéria prosseguiu pausadamente, ao jeito de quem conta uma história:
- Era uma vez um obscuro sargento do exército de um grande país europeu, talvez o maior de todos, não sei bem. O povo dessa nação vivia em grandes dificuldades. Um constante pesadelo. Cada mês um mar de tempestades. Em cada novo dia, sempre uma nova procela. O dinheiro não chegava para metade dos dias do mês mais pequeno e o desemprego alastrava em massa e invadia a maior parte dos lares, assim como as marés vivas de Setembro que inundam os arrabaldes das praias, para já não falar das roupas que engole aos banhistas desprevenidos que assam à torreira do sol. E no entanto era um país muito rico.
- Mas se era um país muito rico, porque tinha tantos pobres e desempregados? - admirou-se João dos Reis.
Picanço, que não se sentiu seguro para dar explicação conveniente, fingiu não ouvir a pergunta e prosseguiu:
- Então o sargento, que era um louco varrido e ainda para mais sedento de poder, acompanhado por outros loucos varridos igualmente sedentos de poderio e de grandeza, inventou a teoria de que o mundo tinha duas espécies de seres humanos, os puros e os impuros. Seriam puros todos os naturais do seu país que não fossem comunistas, nem anarquistas, nem judeus, nem ciganos, nem pretos, nem…, falta-me o termo exacto, olha, que não fossem loucos felizes como tu dizes ser o tal Texana. Vai daí mataram milhões de homens em nome da pureza da sua raça. Mas o mais estranho é que se aliaram no mundo com outros países onde os homens até têm cor de gema de ovo deslavada, o que só quer dizer que a teoria da pureza da raça é uma grande treta. Como vês a loucura do sargento esconde na verdade uma questão mais profunda.
- O quê? - disparou João dos Reis.
- O poder da grande finança que apoiou e deu força ao louco. É por isso que eu te digo que a loucura, ouve bem, a loucura que mais conta na realidade social, não é independente da luta de classes - rematou o Picanço e fechou-se de imediato em copas para que mais tempo perdurasse a sua frase de mestre.
João dos Reis sentiu uma profunda tristeza. Do conhecimento que até aí possuía sobre os loucos, pesando nos dois pratos da balança, os infelizes e violentos por um lado, e no outro os babados e felizes, ainda era para estes últimos que o fiel pendia. Contudo, a história relatada por Picanço viera baralhar tudo na sua mente. Um louco sanguinário, como esse tal sargento, desequilibrara completamente o fiel da balança para o lado trágico. Talvez por isso, um pouco a medo, atreveu-se a perguntar:
- Então, e nessa perspectiva da luta de classes, não há loucos do outro lado?
Ficou feliz por Picanço lhe ter dito que sim. O amigo pôs-se então a falar destes loucos. Contou a história de homens ainda novos, iguais a eles, sem tirar nem pôr, e que um dia decidiram deixar tudo, emprego, mulher, filhos, família, casa, carro, cão e gato, e que até de nome mudaram para lutar pela Liberdade. Vivem em esconderijos, sempre a fugir, mudando constantemente de poiso para que a “Secreta” os não apanhe. De vez em quando há um que cai nas mãos da polícia; mas a boca fecha-se e nem às piores torturas ela se abre para denunciar os companheiros.
- Pois é. São mesmo loucos! - foi espanto tudo quanto assomou ao olhar de João dos Reis pois esta loucura nada tinha que ver com todas as que conhecera até então.
- São. São loucos. Mas da loucura que dá asas ao sonho e à Liberdade!
Jacinta, abalada com a partida de João, embora desde há muito suspeitasse que mais dia menos dia ela acabaria por acontecer, encontrou finalmente o arquétipo do seu falecido marido. Bem o merecia, pois Jacinta, sendo desde há muito um fruto maduro, conservava ainda as cores, a polpa e o sumo que tornam saborosas as frutas.
Encontrou-o na esplanada do costume, enquanto falava de novo sozinha.
Artur Santos entretinha-se a dar de comer aos pombos que lho vinham buscar à mão. Este primeiro facto fizera calar Jacinta e pô-la em alvoroço; não toda ela; sobretudo o seu coração.
Depois Artur começara a falar com as aves e tal acontecimento despertou-lhe a memória adormecida, a caixa secreta onde guardara as mais doces lembranças da personalidade do defunto.
Quando Artur Santos se pôs a distribuir moedas por um bando de garotos da rua e lhes disse: “É para gelados”, Jacinta arrepiou-se toda e experimentou com emoção a surpresa de lhe parecer ter a seu lado, finalmente, o sonho que a perseguira desde há mais de vinte anos.
A última vez que supusera reencontrar em vida a réplica do falecido marido fora ao conhecer João dos Reis. Precipitara-se. Daí o engano. Agora algo lhe dizia que não repetiria o erro. Artur Santos não era apenas ele. Era ele e o outro. Melhor ainda. Era o outro, o defunto, feito ele. Os detalhes neste caso pouco interessam. O que é certo é que passado um mês, Jacinta e Artur Santos, estavam juntando os trapinhos.
Jacinta desta vez não se enganaria. Voltara a viver como gostava, enleada num amor que a prendia completamente, e com o qual ela prendia Artur da mesma forma, livremente obsessiva, conscientemente absorvente; mas eram felizes porque ambos assim gostavam de se amar e nem sequer saberiam viver de um outro modo. Jacinta aprendera à sua custa que não valia a pena mostrar-se como não era; nem nunca seria capaz de ser; ou a aceitavam com as suas qualidades - que teria muitas - e com os seus defeitos - que também teria alguns, como todos os têm - ou nada feito.
Tratou pois de pôr os pontos nos is a Artur Santos: “Far-te-ei feliz, se jamais tiveres pensamentos fora de mim!”
Ora, por uma simples coincidência, Artur Santos pensava exactamente da mesma maneira, pelo que, pensando de imediato em voz alta, lhe disse: “Fica combinado! Nenhum de nós pensará sozinho. Pensaremos sempre alto por forma a que cada um saiba sempre o que o outro está pensando.”
Jacinta sentiu-se feliz e para evitar o paradoxo do impossível acrescentou: “Se algum de nós pensar quando estiver sozinho, mal nos encontremos, contaremos logo todos os pensamentos ocorridos, sejam eles quais foram.”
Não podiam ser mais felizes aqueles dois. Tão felizes que se habituaram a pensar como se uma só alma possuíssem e até nem lhes apetecia pensar na ausência um do outro, com receio de que depois não conseguissem, sem querer, reproduzir com exactidão tudo o que tinham pensado.
Mas, como tudo na vida, não há regra sem excepção. Os espíritos são difíceis de entender e nem sempre o estado do corpo ou a influência do exterior os deixava imunes aos pensamentos privados. Ora, se um violava de vez em quando a regra do pensamento a dois, e disso tinha absoluta consciência, era natural que admitisse que o outro também o poderia fazer; certamente que o faria. Surgiam momentos de desconfiança e então partiam a loiça. Jacinta esmurrava-lhe a cara e puxava-lhe pelas orelhas e pelos cabelos. Artur Santos não queria ficar atrás e largava-lhe um par de tabefes e uns empurrões nem sempre devidamente ponderados.
Depois de muita violência, normal e comum em casais que se amam desta forma tão intensa, e tão partilhada, apanhados os cacos, reparavam que não existia no chão qualquer fragmento de pensamento individual, e caíam nos braços um do outro. Abraçavam-se demoradamente, choravam e riam, o amor entre ambos crescia, e assim se ia fortalecendo."
José Murta Lourenço
José Murta Lourenço nasceu na aldeia de Estoi, concelho de Faro, em 2 de Dezembro de 1949. Licenciou-se em engenharia electrotécnica no final de 1977. É autor de já vasta e reconhecida obra literária.
via
http://manuelcarvalho.8m.com/lourenco0.html
sábado, 4 de dezembro de 2010
Novas leituras
Entro com o meu silêncio
na sala: no lugar um silêncio enorme.
Aumento o sossego...
Ou invadi o outro, perturbei?
Por momentos, apenas.
Passei. E deixo
lentamente o silêncio da sala, dos lugares.
Porque saí só com o meu silêncio
o outro ficou lá intacto.
Zilda Cardoso
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Generosidade (...)
Por Baptista-Bastos
"E, DE REPENTE, abriu-se o caminho de uma vida generosa. O português com extremas dificuldades veio socorrer o português com fome. A grande força espiritual que se move nas horas de desespero, e parecia ameaçada de inanidade, irrompeu no último fim-de-semana. Uma ruptura surda com a indiferença, uma explosão de solidariedade, a contrariar os sinais do tempo e a cupidez que nos tem sido inculcada. As toneladas de comida entregues ao Banco Alimentar podem não constituir a fulguração de uma felicidade perpétua, mas representam sentimentos que rasgam os silêncios de uma sociedade cercada.
A ideologia dominante, que estimula o individualismo, a insensibilidade social e a neutralidade cívica, não sai derrotada desta acção, nem esta experiência de generosidade resolve o drama português. Se a boa vontade não é esclarecida, e os limites do amparo não forem definidos pela política, o balanço da iniciativa apenas momentaneamente é positivo.
O sistema de ganância, de dissolução de valores, destruiu os laços relacionais formativos dos povos e das instituições. É necessário não só renunciar mas, sobretudo, combater esta doutrina que não concilia o respeito mútuo com a dimensão e as exigências civilizacionais. As nossas heranças só serão desiguais quando desinvestimos no carácter humanista da condição a que pertencemos. As decepções e as insatisfações permanentes talvez justifiquem algumas das nossas debilidades morais, como a indiferença ante o sofrimento dos outros. Mas não podem nunca caucionar a duplicidade dos nossos comportamentos nem a capitulação das nossas batalhas.
NO MOMENTO - O Miguel Sousa Tavares fez publicar, na gazeta semanal onde costuma deixar as escorrências a que chama artigos, um texto sobre a greve, cujo teor me abstenho de qualificar. A meio, insere um comentário, pretendidamente espirituoso, à minha crónica da última quarta-feira. Não lhe acerta uma. Deseja, apenas, fazer chicana. E demonstra uma impiedosa crueldade para quem gosta de prosa escorreita e asseada: não consegue escrever com tino, brio e gramática. Aquilo é um emaranhado de disparates, de espinoteantes tolejos, e apenas traduz a conjunção do que de mais retrógrado existe na sociedade. Ele é o xamã dessa tendência. Como só o leio quando se me refere, obriga-me, nessas funestas ocasiões, ao penoso exercício de tentar perceber o que quer dizer. Saí da árdua leitura em estado de exaustão. Sobre manifestar uma atroz inimizade com a língua portuguesa, o pobre homem é desprovido do mais escasso pingo de humor. E não é difícil descortinar, no seu carácter amolgado, sinais de ressentimento, de rancor e de despeito. É só. Mas acaso seja necessário, voltarei a tão encantador assunto..."
.
«DN» de 1 Dez 10
via
http://sorumbatico-longos.blogspot.com/
outras leituras
http://humorantigo.blogspot.com/
http://carmoeatrindade.blogspot.com/
http://noreinodoabsurdo.blogspot.com/
http://a-moscavarejeira.blogspot.com/
http://postaisalemanha.blogspot.com/
"E, DE REPENTE, abriu-se o caminho de uma vida generosa. O português com extremas dificuldades veio socorrer o português com fome. A grande força espiritual que se move nas horas de desespero, e parecia ameaçada de inanidade, irrompeu no último fim-de-semana. Uma ruptura surda com a indiferença, uma explosão de solidariedade, a contrariar os sinais do tempo e a cupidez que nos tem sido inculcada. As toneladas de comida entregues ao Banco Alimentar podem não constituir a fulguração de uma felicidade perpétua, mas representam sentimentos que rasgam os silêncios de uma sociedade cercada.
A ideologia dominante, que estimula o individualismo, a insensibilidade social e a neutralidade cívica, não sai derrotada desta acção, nem esta experiência de generosidade resolve o drama português. Se a boa vontade não é esclarecida, e os limites do amparo não forem definidos pela política, o balanço da iniciativa apenas momentaneamente é positivo.
O sistema de ganância, de dissolução de valores, destruiu os laços relacionais formativos dos povos e das instituições. É necessário não só renunciar mas, sobretudo, combater esta doutrina que não concilia o respeito mútuo com a dimensão e as exigências civilizacionais. As nossas heranças só serão desiguais quando desinvestimos no carácter humanista da condição a que pertencemos. As decepções e as insatisfações permanentes talvez justifiquem algumas das nossas debilidades morais, como a indiferença ante o sofrimento dos outros. Mas não podem nunca caucionar a duplicidade dos nossos comportamentos nem a capitulação das nossas batalhas.
NO MOMENTO - O Miguel Sousa Tavares fez publicar, na gazeta semanal onde costuma deixar as escorrências a que chama artigos, um texto sobre a greve, cujo teor me abstenho de qualificar. A meio, insere um comentário, pretendidamente espirituoso, à minha crónica da última quarta-feira. Não lhe acerta uma. Deseja, apenas, fazer chicana. E demonstra uma impiedosa crueldade para quem gosta de prosa escorreita e asseada: não consegue escrever com tino, brio e gramática. Aquilo é um emaranhado de disparates, de espinoteantes tolejos, e apenas traduz a conjunção do que de mais retrógrado existe na sociedade. Ele é o xamã dessa tendência. Como só o leio quando se me refere, obriga-me, nessas funestas ocasiões, ao penoso exercício de tentar perceber o que quer dizer. Saí da árdua leitura em estado de exaustão. Sobre manifestar uma atroz inimizade com a língua portuguesa, o pobre homem é desprovido do mais escasso pingo de humor. E não é difícil descortinar, no seu carácter amolgado, sinais de ressentimento, de rancor e de despeito. É só. Mas acaso seja necessário, voltarei a tão encantador assunto..."
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domingo, 7 de novembro de 2010
"A idiotice é vital para a felicidade"
"A idiotice é vital para a felicidade.
Pessoas chatas são as que querem ser sempre sisudas, profundas e viscerais. A vida já é um caos, então porque querermos torná-la num tratado cheio de regras? O ideal é ser-se sisudo nos momentos inevitáveis: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria-se dos seus próprios defeitos. E de quem acha que os tem. Ignore o que o estúpido do seu chefe lhe disse. Pense assim: quem tem que andar com aquela cara tão feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele.
Milhares de casamentos acabaram não pela falta de amor, dinheiro, sexo, química, mas pura e simplesmente pela falta de idiotice.
Quem lhe disse que é bom partilharmos a vida com alguém que tem conselhos para tudo, soluções sensatas, mas que não se consegue rir quando tropeça?
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas que não tem a menor ideia de como preencher as horas livres de um fim de semana?
É muito vulgar haver pessoas que se sentem perdidas quando se acabam os problemas.
Desaprenderam de como se brinca. Brincar é bom. Ouviu bem?
Esqueça os que lhe falaram sobre o que é ser-se adulto, ou seja ter maneiras à mesa, não se dizer asneiras, não se ser imaturo, não chorar, não andar descalço à chuva.
Os adultos podem (e devem) contar anedotas, passear nos parques, rirem alto e lamberem as tampas dos iogurtes.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "senão" realmente aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.
Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida fazer uma de duas coisas: ficar de mau humor ou sorrir...
O que é verdadeiramente bom é ter-se problemas na nossa cabeça, sorrisos na boca e paz nos nossos corações!
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que caia o pano!"
(::) (::) (::)
"... No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria-se dos seus próprios defeitos. Ignore o que o estúpido do seu chefe lhe disse. Pense assim: quem tem que andar com aquela cara tão feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. E sinta as coisas como realmente são, isto é, passageiras."
Vicente Mais Ou Menos De Souza
http://vdeguaratiba.blogspot.com/
sábado, 6 de novembro de 2010
Tornar ao estado de graça
O homem do Renascimento
"Pediram-me para falar do Homem do Renascimento. É um assunto enorme, se pensarmos que houve distintos Renascimentos e vários Homens Renascentistas gigantescos na história da cultura ocidental. E se pensarmos também no homem de qualquer renascimento.
O que posso dizer é que prefiro, preferimos agora na Europa, um renascimento inteiramente novo, depois de mais uma idade média que não acaba de passar. Porém, é desejável que, ao menos na política (ou talvez deva ser em tudo menos na política), surja um génio capar de resolver os problemas particularmente difíceis que inventámos e temos neste momento para despachar.
Podemos considerar que, se o homem não é o centro do Universo, é pelo menos o centro do que lhe interessa conhecer. Daremos relevo ao homem do renascimento nesse sentido.
E não queremos um homem, mas o homem.
Que seja o que acredita na própria inteligência e capacidade para resolver os problemas que surgem num campo do saber. Ou em vários. Depois de delimitar os saberes.
Todos conhecem o modelo que foi Leonardo da Vinci, génio pintor, génio escultor, génio engenheiro, génio inventor… Não sei se sabia muito de política ou se queria saber, calculo que se quisesse saberia porque se empenhava, investigava seriamente. Reflectia e discernia. Planeava e experimentava. É fácil supor que fazia um BOM orçamento. Até que pegava nos instrumentos e no material e realizava a obra, com perspectiva.
No que nos diz respeito, a nós portugueses, não queremos saber de mulheres e de homens apreensivos ansiosos inquietos a respeito de tantos temas de grande importância para todos nós. Comovem-nos. Mas não é disso que carecemos. Disso, dos comentadores medievais. Não era o que os tais faziam? Comentavam o comentário do comentário do comentário, sem fim. Sem outro fim. Apesar da sua erudição, nunca chegavam a conclusões que interessassem o comum dos mortais. No quotidiano do mundo.
Estamos a ver isso de novo, e não queremos. Sinto-me a viver a mesma Idade dos comentadores mais ou menos subtis. O pior é que este género de coisas tende a prolongar-se indefinidamente. Da outra vez, durou onze séculos. Vamos ainda neste tempo obstinar-nos no prolongamento da nossa alma medieval?
Mas não são apenas os comentadores e o seu fervor o que nos apoquenta. São as disputas, a argumentação dos políticos nos parlamentos, dos que aprenderam com as disputas a argumentar. É que possivelmente foram quem ditou os textos sábios, e não acertam os seus discursos com a realidade em que vivemos.
O que queremos é saber de que modo podemos intervir para resolver, tal como faziam os do Renascimento munidos de novo espírito empreendedor e científico.
As mulheres e os homens novos estão aqui. Estiveram sempre aqui.
Vamos entrar agora não de roldão. Mas com ideias e projectos inteligentes e vontade de os realizar sensata e seriamente. Já."
via
http://zildacardoso.blogs.sapo.pt/
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
“Os pés de Rudolf Nureyev”
"Foi uma alegria quando o sexto esquerdo do prédio dos meus pais foi comprado. Finalmente, o último apartamento seria ocupado. Acabava, assim, o corrupio de potenciais compradores, gente que entrava e saia, examinando cada recanto, mexendo em tudo, olhando-nos, seus potenciais vizinhos, com a mesma frieza com que olhavam os mármores da entrada e os alumínios dos caixilhos. O prédio seria, por fim, poupado ao embaraço desses estranhos que pareciam fazer troça do nosso lar. Podia repousar na tranquila alegria de uma família completa. Logo se soube que o apartamento fora comprado por um casal de professores aposentados. Tinham apenas um filho que acabara há pouco tempo o curso de medicina. As características do novo agregado familiar agradaram a toda a gente. Num prédio de funcionários públicos, donas de casa, militares de pequena patente, retornados, um casal de professores proporcionava a decência escolástica que o exercício do professorado ainda gozava naquele tempo. Um jovem médico exerceria, por outro lado, uma boa influência nos miúdos que cresciam naquele bairro dos arrabaldes de Lisboa. Feita a mudança, o casal instalou-se. Os professores aposentados eram muito educados. Nunca estacionavam o carro no lugar dos vizinhos e traziam o patim da escada impecavelmente limpo. Já o filho, o jovem médico, logo na sua primeira aparição, provocou nos habitantes do prédio um desconforto miudinho. Era uma sensação estranha que não sabiam explicar. Parecia um bicho cocegando a pele.
Esguio, seco como um ramo, de rosto pálido e comprido, o rapaz fazia lembrar um louva-a-deus. Tinha lábios finos, hirtos, tensos. Os olhos, cinzentos, muitos claros, eram bonitos, quase transparentes, de vidro, como se neles nos pudéssemos assomar para lhe espreitar o avesso. Vestia-se com uma certa informalidade moderna que muitos vizinhos confundiam com desmazelo. Usava o cabelo pelos ombros e trazia sempre uma mala a tiracolo. Movia-se com discrição. Em silêncio. Parecia procurar as sombras para que ninguém o visse. O jovem médico, andrógino, ligeiramente extravagante, tão silencioso, foi olhado com desconfiança. Um dia tudo se esclareceu: o rapaz afinal não era só médico. Também era bailarino. Fazia parte de uma companhia de dança clássica. Foi um desassossego. Os habitantes inquietaram-se. Um bailarino, ainda que médico, não era uma influência saudável na juventude do prédio. Os rapazes mais velhos andavam quase todos na Afonso Domingos. Tinham o destino traçado. Era um futuro de sucesso e virilidade que os esperava. Seriam engenheiros mecânicos, engenheiros civis, engenheiros químicos, engenheiros electrotécnicos. Se algum, mais sensível, não se sentisse atraído pelo funcional mundo da engenharia, poderia ser sempre arquitecto. Um bailarino destoava daquele quotidiano de fundações sólidas e inabaláveis.
Eu, pelo contrário, quando soube da notícia, fiquei encantada. O meu mundo, circunscrito ao prédio, ao centro comercial do bairro e ao externato, não tinha bailarinos, nem cantores, nem pintores, dispensava a poesia e a imaginação. As pessoas que conhecia, coitadas, eram tão concretas! Por essa altura, influenciada pelo comunismo da minha tia, vibrava com as vitórias das ginastas russas, apreciava genuinamente os desenhos animados checoslovacos. Gostava, sobretudo, de me encostar no corpo da tia Dé, para assistirmos aos programas de televisão que glorificavam o socialismo soviético. Foi neste contexto, embalada nos braços de fêmea da minha tia, que, num documentário sobre a vida do bailarino russo, descobri os pés do Rudolf Nuriyev. Como boa aprendiza, não me interessei pela história da fuga. Queria lá eu saber por que é que o bailarino fugira da pátria amada e se enfiara no covil mais sujo do mundo! O que me impressionou, e para sempre se gravou na minha memória, foi a imagem dos seus pés. Eram uns pés monstruosos, feiíssimos, calejados, totalmente deformados pelas longas horas de treino em pontas. Com as suas calosidades, os seus ossos corcundas, os metatarsos deslocados, as falanges e falangetas libertas da sua posição inicial, soltas numa amálgama de tecidos moles, eram uma imagem impressionante de sofrimento e perseverança. Mostravam também que a beleza pode nascer da feiura. Aqueles pés equídeos eram os mesmo que sustentavam o corpo esguio do bailarino e o fazia voar pelo palco, com uma leveza de pássaro alado.
Foi então que pensei: se o tal Rodolfo Nuriyev, que era bailarino, tinha pés deformados, também o meu vizinho bailarino os teria. Era um silogismo simples que permitia conclusões irrefutáveis. Os pés do jovem médico tornaram-se numa obsessão. Precisava de os ver! Quando subia com o jovem médico no elevador, a primeira coisa que fazia era olhar para baixo. Porém, ele trazia sempre os pés enfiados numas alpercatas vermelhas. Eu bem tentava perceber, através da lona áspera, a forma dos seus pés. Mas nada. Nem um joanete, nem um aleijão, nem uma curva duvidosa se mostrava para me sossegar a curiosidade. Estava quase a perder a esperança quando finalmente lhe pude ver os pés. Certa manhã, saindo do prédio com a minha mãe, percebi que o jovem médico subia a rua em sentido contrário. Os pés vinham livres, enfiados nuns chinelos. Antecipei, com deleite, as sensações de surpresa e horror que iria experimentar. Apressei o passo. Quando nos cruzámos, enquanto a minha mãe cumprimentava o jovem médico, olhei-lhe para os pés. Tive uma desilusão profunda. Devo ter soltado um grito pequenino. Para meu desgosto, eram uns pés grandes, normais, de dedos longos, sem qualquer interesse, nem um calinho se topava naquela pele macia, naqueles pés de deus grego. A normalidade daqueles pés pareceu-me grotesca. Não fora a minha mãe puxar-me pela mão e teria invertido o sentido da marcha para os observar com mais atenção, para me indignar com a sua banalidade.
O tempo passou. Apesar de mal se dar por ele, continuava a procurar as sombras, o jovem médico passou a ser o exemplo de um mundo de certa bizarria que não era o nosso. Uma manhã, estando na sala a ler, escutei na cozinha, a voz da minha mãe e da minha tia. Falavam em murmúrios. Calaram-se quando entrei. Percebi que era do jovem médico que falavam. Se calhar, pensei eu, também elas haviam reparado nos seus pés normais! Afinal, a tia Dé vira na televisão o documentário sobre o tal bailarino russo! Ela sabia que os bailarinos não tinham pés macios, normais, bonitos! Até que, certo dia, percebi que só eu vivia angustiada com a normalidade dos pés do jovem médico. Estava perto do elevador. Esperava que a minha mãe chegasse com o correio para subirmos, quando, vinda da escuridão fresca da garagem, surgiu uma mulher. Olhei-a de alto a baixo. Trazia o cabelo apanhado com muitos ganchos. Não era bonita, nem feia. Nem gorda, nem magra. Nem alta, nem magra. Era apenas uma mulher. O rosto pareceu-me vagamente familiar. Subiu connosco no elevador. Usava um vestido pingão às cornucópias, que parecia escorrer-lhe do corpo, escondendo formas e saliências. Calçava sandálias de couro e, por isso, pude ver-lhe os pés. Depressa percebi que conhecia aqueles pés. Por tudo aquilo que não eram, de tão normais e banais, aqueles pés tinham ficado gravados num canto qualquer da minha memória. Eram os pés do jovem bailarino, só que estavam postos no corpo daquela mulher. Olhando-lhe para os pés, percebi que afinal a mulher fazia-me lembrar o jovem médico: tinha os mesmos olhos transparentes, de vidro, aguados, tristes. Puxei a mão da minha mãe, muito aflita, como que a tentar explicar-lhe a razão do meu tormento. Quando saímos no terceiro andar, mal a porta se fechou, perguntei-lhe o que se passava, quem era aquela mulher que estava no nosso prédio e se apossara dos pés e do rosto do jovem médico. A minha mãe procurou a chave na mala, meteu-a na fechadura, rodou-a sobre si própria, uma duas, três voltas, abriu a porta. Depois, esgueirou-se para o quarto, dizendo que tinha de tirar os sapatos que lhe magoavam os pés. Quando voltou, descalça, perante o meu olhar inquisidor, como se falasse da coisa mais natural do mundo, explicou que o jovem médico fizera uma operação e se tornara numa mulher. Mandou-me fazer os trabalhos de casa e fugiu para a cozinha. Fiquei parada, no meio do corredor, na companhia dos deuses de sândalo, espantada com aquela revelação. Como podia um homem transformar-se em mulher? Podia acontecer-me o mesmo?
O assunto foi esquecido. A minha mãe e a minha tia, por vezes, falavam do jovem médico, sem maledicência ou preconceito. Só estranheza. O meu pai, porém, franzia-se todo. Homossexuais, lésbicas, transexuais, eram uma estirpe de proscritos. Não eram dignos de desprezo ou nojo. Apenas de indiferença. Como os intocáveis da sua Índia natal. Calei as minhas dúvidas durante muito tempo. Anos mais tarde, percebi, naturalmente, o que acontecera. O rapaz do sexto esquerdo livrara-se de um corpo que não era seu. Porventura, fizera uma vaginoplastia, redesenhara a sua intimidade, arrancara de si um pedúnculo de raízes fundas, mas podres. No seu lugar, crescera uma flor muito frágil e simples. Era um acto de profunda coragem que punha em causa as leis do mundo, de deus e do nosso prédio. Desejei que a metamorfose do seu corpo lhe trouxesse paz. O jovem médico, tornado mulher, deixaria de procurar as sombras. Foi o que pensei. Voltei a subir no elevador, muitas vezes, com a médica. Assisti ao seu envelhecimento. Passou a usar óculos. O cabelo ralo cola-se ao crânio, sem graça ou beleza. Parece trazer sempre o mesmo vestido de cornucópias. Deixou de dançar e engordou um pouco. Os pais morreram. Vive sozinha no sexto esquerdo. Da janela da marquise do apartamento dos meus pais, onde gosto de observar a rua da minha infância, vejo-a chegar. Estaciona o carro no lugar onde o seu pai estacionava um datsun azul. Tira um ou dois sacos de compra. Movimenta-se com lentidão. Continua a procurar as sombras. Já não estranho que, há muito tempo atrás, tenha sido o jovem médico bailarino que fez tremer os alicerces do nosso mundo. Perdoei-lhe, há muito, o facto de ter uns pés normais, sem o grotesco encanto dos do Rudolf Nuriyev. Vista da janela, procurando as sombras, sempre as sombras, apenas me custa a sua solidão, que é imensa."
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
LIVROS, BIBLIOTECAS
"Reconheço a minha compulsão pelos livros. Acontece-me muitas vezes comprar alguns aparentemente ao acaso.
Um pouco como uma maçã que exposta em qualquer dos múltiplos lugares de fruta, nos prende a atenção pelo seu brilho e cor, pela textura que sugere, pelo cheiro que exala e pelo sabor que promete, os livros chamam-me a atenção e pedem-me que, da mesma forma, os olhe, lhes toque, pegue e, seja pelo título, pela sinopse, ou quem sabe, pela textura e pelo cheiro que exalam também, não lhes resisto.
É uma perdição manusear livros. Tê-los e deixá-los ficar por instantes mais ou menos longos nas mãos, sob um olhar mais cuidadoso, num momento inesperado de curiosidade e vontade de os levar para ler…
Assim me acontece muitas vezes.
Das prateleiras dos múltiplos lugares que vendem livros, às vezes alguns parecem querer falar comigo. Pego-lhes… e, por vezes completamente desconhecidos, se me dizem qualquer coisa, confesso que os pago e trago comigo, para escutá-los mais tarde com toda a tenção que me despertem.
Assim, malgrado o preço e as contenções a que devemos estar cada vez mais atentos, lá vai mais um. Uma dentada em prol do conhecimento e do prazer. Mais um pecado, pouco original, porque afinal, embora se diga que poucos lêem, não serei a primeira nem a última a cometê-lo.
Aconteceu-me isso, esta semana.
De um canto do lugar onde compro algumas revistas e jornais chamou-me a atenção um livro esguio… “CRISES”… “O lado positivo das crises”, de Christiane Singer… Não conhecia autora nem livro. Temi que fosse mais um desses livros de “auto-ajuda”!… Não que tenha alguma coisa contra esse tipo de livros, se promoverem a leitura, não estiverem incorrectamente escritos e não induzirem quem os lê a dispensar outras ajudas caso necessitem, sem o saber! Mas não é o tipo de livro que compre só por apelo de prateleira.
Como profissionalmente abordo com frequência o tema das “Crises”, nomeadamente as crises situacionais, peguei-lhe da forma que já descrevi e trouxe-o para casa. De casa, apesar da pilha de espera, arrumei-o no saco do fim-de-semana dando-lhe prioridade sobre outros que não se melindrarão pela escolha. Vantagem dos livros.
Curiosa, hoje de manhã li o prólogo e o primeiro capítulo. E enquanto lia, ia dando conta de que, mais do que aliviada por não ter resvalado em vão neste meu vício compulsivo que preciso controlar no obrigatório aperto do cinto, respirava de entusiasmo e agradável empatia.
Ah que prazer este que dificilmente se descreve… ah, este encontro com as ideias, este mergulho nas palavras que se parecem esfumar no sentido que transmitem, na direcção que apontam, na presença humana que têm e ao mesmo tempo as transcende. Ah esse sentirmo-nos catapultados para lá do que poderíamos esperar, para tão longe e tão mais perto de nós e dos outros… que mistério fantástico que nos apaixona e serena…
Caramba, não era um livro de poesia, nem provavelmente uma obra literária daquelas que nos conduz a outra dimensão, que nos transporta e exalta… e no entanto, sem pretensas avaliações fez-me sentir tamanho entusiasmo e alegria que fiquei presa e “garrei” do local onde estava sentada para a dimensão interior que me dizia entender aquelas mesmas palavras.
Caramba (outra vez e com mais força)… e é só mais um livro que estou só a iniciar e provavelmente não chega aos calcanhares de tantos outros que já li e me extasiaram…
Interessa avaliar? Interessa comparar, hierarquizar, catalogar – “melhor”, “pior”?… Quem sou eu que conhecimentos e que fundamentação tenho para fazê-lo? E se tivesse, que direito?
Há livros para todos os momentos e, como diz o Rui Zink, é bom que se leia de tudo um pouco… desde a lista telefónica (espero que não a eito, por favor), à receita de culinária… e acrescento que uma receita pode ser altamente sugestiva e dar um prazer enorme ler, se propositadamente a trabalharmos para esse fim.
Falo de compulsão… e de livros. Essa curiosa e estranha forma de comunicação que preciso. Esta porta fantástica para a aprendizagem… para a reflexão… para o exercício das ideias, do pensamento, da comunicação.
Se não houvesse quem expressasse experiências, sentimentos, emoções… quem não procurasse e encontrasse diferentes formas de transmitir o comum e o incomum que há em cada um de nós, ficaríamos por certo, muito mais pobres.
Que seria de nós sem livros?
Bendita compulsão!"
via
http://inescrever.wordpress.com/
Irremediavelmente longe
procuro identidade
mais que um nome,
mais que prole
de antepassados que não conheço
ou nada me dizem,
procuro identidade
a alma
para além do nome.
Isabel Maia Jácome
Um pouco como uma maçã que exposta em qualquer dos múltiplos lugares de fruta, nos prende a atenção pelo seu brilho e cor, pela textura que sugere, pelo cheiro que exala e pelo sabor que promete, os livros chamam-me a atenção e pedem-me que, da mesma forma, os olhe, lhes toque, pegue e, seja pelo título, pela sinopse, ou quem sabe, pela textura e pelo cheiro que exalam também, não lhes resisto.
É uma perdição manusear livros. Tê-los e deixá-los ficar por instantes mais ou menos longos nas mãos, sob um olhar mais cuidadoso, num momento inesperado de curiosidade e vontade de os levar para ler…
Assim me acontece muitas vezes.
Das prateleiras dos múltiplos lugares que vendem livros, às vezes alguns parecem querer falar comigo. Pego-lhes… e, por vezes completamente desconhecidos, se me dizem qualquer coisa, confesso que os pago e trago comigo, para escutá-los mais tarde com toda a tenção que me despertem.
Assim, malgrado o preço e as contenções a que devemos estar cada vez mais atentos, lá vai mais um. Uma dentada em prol do conhecimento e do prazer. Mais um pecado, pouco original, porque afinal, embora se diga que poucos lêem, não serei a primeira nem a última a cometê-lo.
Aconteceu-me isso, esta semana.
De um canto do lugar onde compro algumas revistas e jornais chamou-me a atenção um livro esguio… “CRISES”… “O lado positivo das crises”, de Christiane Singer… Não conhecia autora nem livro. Temi que fosse mais um desses livros de “auto-ajuda”!… Não que tenha alguma coisa contra esse tipo de livros, se promoverem a leitura, não estiverem incorrectamente escritos e não induzirem quem os lê a dispensar outras ajudas caso necessitem, sem o saber! Mas não é o tipo de livro que compre só por apelo de prateleira.
Como profissionalmente abordo com frequência o tema das “Crises”, nomeadamente as crises situacionais, peguei-lhe da forma que já descrevi e trouxe-o para casa. De casa, apesar da pilha de espera, arrumei-o no saco do fim-de-semana dando-lhe prioridade sobre outros que não se melindrarão pela escolha. Vantagem dos livros.
Curiosa, hoje de manhã li o prólogo e o primeiro capítulo. E enquanto lia, ia dando conta de que, mais do que aliviada por não ter resvalado em vão neste meu vício compulsivo que preciso controlar no obrigatório aperto do cinto, respirava de entusiasmo e agradável empatia.
Ah que prazer este que dificilmente se descreve… ah, este encontro com as ideias, este mergulho nas palavras que se parecem esfumar no sentido que transmitem, na direcção que apontam, na presença humana que têm e ao mesmo tempo as transcende. Ah esse sentirmo-nos catapultados para lá do que poderíamos esperar, para tão longe e tão mais perto de nós e dos outros… que mistério fantástico que nos apaixona e serena…
Caramba, não era um livro de poesia, nem provavelmente uma obra literária daquelas que nos conduz a outra dimensão, que nos transporta e exalta… e no entanto, sem pretensas avaliações fez-me sentir tamanho entusiasmo e alegria que fiquei presa e “garrei” do local onde estava sentada para a dimensão interior que me dizia entender aquelas mesmas palavras.
Caramba (outra vez e com mais força)… e é só mais um livro que estou só a iniciar e provavelmente não chega aos calcanhares de tantos outros que já li e me extasiaram…
Interessa avaliar? Interessa comparar, hierarquizar, catalogar – “melhor”, “pior”?… Quem sou eu que conhecimentos e que fundamentação tenho para fazê-lo? E se tivesse, que direito?
Há livros para todos os momentos e, como diz o Rui Zink, é bom que se leia de tudo um pouco… desde a lista telefónica (espero que não a eito, por favor), à receita de culinária… e acrescento que uma receita pode ser altamente sugestiva e dar um prazer enorme ler, se propositadamente a trabalharmos para esse fim.
Falo de compulsão… e de livros. Essa curiosa e estranha forma de comunicação que preciso. Esta porta fantástica para a aprendizagem… para a reflexão… para o exercício das ideias, do pensamento, da comunicação.
Se não houvesse quem expressasse experiências, sentimentos, emoções… quem não procurasse e encontrasse diferentes formas de transmitir o comum e o incomum que há em cada um de nós, ficaríamos por certo, muito mais pobres.
Que seria de nós sem livros?
Bendita compulsão!"
via
http://inescrever.wordpress.com/
Irremediavelmente longe
procuro identidade
mais que um nome,
mais que prole
de antepassados que não conheço
ou nada me dizem,
procuro identidade
a alma
para além do nome.
Isabel Maia Jácome
sábado, 25 de setembro de 2010
O Destino da Europa - reflexão

"A expulsão dos ciganos de França encontra fácil justificação no seu mais do que conhecido comportamento.
A expulsão dos judeus de diversos países da Europa e em diferentes épocas encontrou sempre justificação seguida muitas vezes de arrependimento da parte dos que os expulsaram, como aconteceu na Península Ibérica.
Tal como se pode verificar nas palavras de J. Freudenthal, a razão para a aversão aos judeus, pelo menos na Alemanha, era o facto de serem uma minoria e ocuparem altos cargos, embora também houvesse pessoas modestas nos ofícios a que sempre se dedicavam com sucesso. Claro que não acontece o mesmo com os ciganos.
A este propósito, lembro-me de Agustina e do seu livro, meu preferido, um livro de viagens. Ela tinha sido convidada em 1959 a participar num congresso no Castelo de Lourmarin, em Aix-en-Provence, que reunia “figuras muito ilustres da literatura europeia”. Viajou com o marido, Alberto Luís, no famoso Volkswagen que ele conduzia, e relatou para nossa delícia os pormenores da viagem e não apenas o Congresso.
O tema geral foi O destino da Europa e por esse motivo associei estes acontecimentos, um recente, outros antigos e o outro muito antigo que pode ter tido início no século IV d.C, quando os judeus foram expulsos de Jerusalém e aportaram na Península em grande número; e quando os ciganos, creio que no século XI, se dispersaram na Europa.
Não queria falar da história dos judeus nem da história dos ciganos, mas do que Agustina diz acerca do destino da Europa e do Encontro de Lourmarin que foi para ela decepcionante quanto ao que intelectuais podiam saber acerca da Europa.
É evidente que estou a pensar que o destino da Europa passa por acontecimentos como aqueles: quem é que tem o direito de ser chamado europeu?
São palavras dela, estas: “…no fim de contas, o europeu é o ser mais mentiroso que existe – isso confirma o seu grau de civilização, pois esta começa sempre com a mentira”.
"A Europa não está dependente dos seus intelectuais mais do que das hordas de pequenos oficiais do nada, os que existem com uma côdea e um casaco que veio de mão em mão, através dos burgueses e dos operários, para cobrir a nudez desse último dos cidadãos, dos europeus, se quiserem. Esse que remenda tachos velhos, que coloca chapadas de pano preto nos guarda-chuvas coçados, que vende nastros, ganchos, botões, alfinetes em tabuleiros nas ruas e que deita a correr com as suas pernas de tísico porque não possui licença para circular com a sua mercadoria; esse que traz ao pescoço um atestado que o recomenda à caridade pública, a marafona velha, o mendigo ultrajado, o que cose moedas de prata no colchão, o que sofre na carne que nunca foi apetecível, o que sofre na alma que nunca floriu, esses são europeus e deles também se espera alguma coisa. O quê? Não sabemos, os que escrevemos livros, os que produzem tratados em letra apertada e difícil, os que sobrevoam a terra com a sua carga brilhante das ideias”.
“… o futuro da Europa não é coisa apenas de alguns; seria triste e arrepiante que assim fosse, seria contrário à obra divina”.
(Vale a pena ler a Embaixada a Calígula)
Em 2009, o presidente do Parlamento Europeu recebeu um prémio pelo trabalho desenvolvido pelo Parlamento em defesa dos direitos da comunidade cigana na Europa.
“Dos 12 a 15 milhões de Roma (ciganos) que vivem na Europa, 10 milhões vivem em Estados-Membros da União Europeia, a maioria dos quais adquiriu a cidadania europeia com o alargamento de 2004 e a adesão da Roménia e da Bulgária em 2007”.
(Informações obtidas através da Internet)
via
http://zildacardoso.blogs.sapo.pt/
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Vamos falar de Solidão?
solidão
s. f.
Retiro; lugar solitário; isolamento.
“Solidão, diz o dicionário, é o estado do que está só.
Sabemos que aquele que está só pode sentir-se feliz ou não… de todo. O que leva a pensar que solidão não é apenas o estado de estar só. A palavra que tem graves conotações - de desventura, de mágoa - representa também um sentimento.
Como sentimento, pode querer dizer abandono. Abandono, desistência, repúdio, desamparo… Que será consequência de incapacidade natural de comunicar – de ouvir e de falar com os outros. Ou pode ter outras origens: a desestruturação da família tradicional terá acabado com a afectividade social fácil senão espontânea. Poderá ser questão de temperamento?
As pessoas incapazes de dialogar, supostamente rejeitadas, tornam-se agressivas, transformam o mundo num imenso campo de batalha, onde lutam… distantes, incompreendidas e incapazes de compreender.
O estar só, simplesmente, não quer significar solidão com todo o conhecido cortejo de características negativas, mas pode ser um desejo e uma necessidade, uma vontade e uma satisfação.
E haverá momentos em que as duas situações se associam: queremos estar sós e em silêncio porque precisamos absolutamente disso para o nosso trabalho, mas não queremos prolongar esse estado nem o sentimento (eu abandono os próximos, os outros abandonam-me, logo sentirei a solidão) para além do tempo em que necessitamos de nos concentrar e de trabalhar sem dispersão.
Por isso, digo, verdadeiramente ninguém aprecia estar só, quero dizer, não… 24 horas por dia, 7 dias por semana, a vida toda. Apenas o faremos com alegria e, mesmo assim, durante o tempo necessário, se estivermos obcecados por uma acção que nos preencha inteiramente.
O trabalho, qualquer trabalho, é esforço e pena, mesmo quando dá prazer a quem o realiza e deleita aqueles a quem se destina, como é o caso do trabalho do escritor.
Na sua linguagem radiosa, muito criativa e estimulante, Roland Barthes toca o ponto fundamental quando enuncia a dificuldade principal do escritor moderno – o que o faz sofrer, o que o leva ao isolamento, ou, se quiserem, à solidão. Que é também a da sua escrita.
Tento explicar, seguindo Barthes.
“Como a arte moderna na sua totalidade, a escrita literária contém simultaneamente a alienação da História e o sonho da História: como necessidade atesta o dilaceramento das linguagens... como liberdade é a consciência desse dilaceramento e o próprio esforço que pretende ultrapassá-la”.
O escritor convencido da sua modernidade procura uma ruptura na língua; que é um sistema de valores e uma instituição social e, como tal, não pode ser modificada por nenhum indivíduo. E, de qualquer modo, resiste: foi construída por ninguém para que a comunidade se entendesse. Tudo o que podemos fazer é aprender a manobrá-la.
O que o escritor pretende, aquilo a que se obriga, e que é criar uma linguagem nova e livre, talvez nunca passe de projecto ou de sonho ou de experiência, já que o tumulto que provoca na língua vai tornar a escrita ilegível.
Apesar de tudo e de todos os seus desejos e prazeres, esforça-se por comunicar ainda, a um outro nível, empenha-se em dizer alguma coisa, mesmo que seja outra coisa, mesmo que não seja o que diz, mesmo que seja o que não diz.
Penso que a escrita neste sentido se assemelha à pintura não figurativa e como qualquer outra arte do nosso tempo, corresponde à visão de um mundo desordenado e intrigante e também a "modificações decisivas de mentalidades e de consciências".
No século XIX, os escritores concebiam belas histórias românticas, e davam às suas narrativas a forma tradicional do romance. Os poetas queriam estar sós e tristes porque isso era interessante para a sua obra afectiva e sensível - assim António Nobre, Fernando Pessoa, tantos outros. E havia os génios que tinham a primazia do estado solitário.
Presentemente, pensa-se que as histórias estão todas bem ou mal contadas e os poemas líricos todos ditos, o que importa é o trabalho com a linguagem.
É evidente que o pobre escritor e o poeta contemporâneos têm de utilizar os velhos significantes ligados aos antigos significados porque esses são os signos que constituem a língua que usam. E, do mesmo modo, devem abandonar a literatura que os antecedeu. Mas a sua obra vai tornar-se-á escrita , tal como pretendem, no fim de um trabalho que é provocante e maldoso - o de perverter a sagrada língua da Mãe e dos Avós.
Deve ele usar a língua pura, purificá-la mais, ou perverter a língua? Quer novidades que só surgem com … O escritor é uma pessoa de bem, por isso, se interroga de que modo pode perverter a língua sem a perverter. É nesse duro dilema que a sua consciência se despedaça.
Se, apesar de toda esta actividade considerada criminosa, quer continuar a ser escritor é porque acredita que lhe está prometido um mundo novo, onde a linguagem será asseada e viçosa e brilhante. E não resiste.
trabalho a partir de materiais usados não é exclusivo do escritor, mas ele é o único que utiliza o que, além de pertencer à comunidade, é sua pertença de modo tão privado, como uma qualidade que é sua desde que se conhece, como sua cultura e sua pátria.
Uma das razões do desejo de estar só e de solidão é que esse trabalho torturante implica uma cabeça limpa e em silêncio. E não se trata apenas do silêncio exterior a si.
Por vezes, sinto que tenho de empurrar pensamentos persistentes, impeli-los com força como caixotes pesados, afastá-los do centro da minha mente para ter aí espaço, que sinto como físico, para aqueles com que me quero ocupar.
E a escrita, culpada do afastamento do autor (se a sua linguagem é diferente, ele fica desligado dos outros e é esta a solidão que dói), é ela própria solitária porque é indecifrável, quero dizer, não comunica facilmente, quase desiste de desamparo, (haverá um código que se descobre no momento em que há que inventar outro), mas tem sempre e ainda uma esperança de expressividade, tal como o autor. A escrita quer conservar um sentido vago, um reflexo, uma diminuta recordação do velho código, talvez uma metáfora.
E como as pessoas incapazes de dialogar, a escrita é agressiva na sua luta isolada para ser aceite e entendida.
“Sentindo-se constantemente culpada da sua solidão, ela não deixa de ser por isso uma imaginação ávida de uma felicidade das palavras, precipita-se para uma linguagem sonhada cuja frescura, por uma espécie de antecipação ideal, representa a perfeição de um mundo novo adâmico onde a linguagem já não seria alienada”.
Deveremos ser sensíveis e pesquisar, estudar, tentar conhecer.
Enfim há muitas solidões para o escritor: as dele - a voluntária e desejada (gostava de inventar uma palavra nova) que é um silêncio, exterior; o outro silêncio que afasta os ruídos interiores; a que não deseja e lhe vem das dificuldades de um trabalho criativo e subversivo (a sua escrita – original e difícil de compreender - afasta-o e isola-o dos outros). E a da escrita, a solidão da escrita, ela própria a afastar-se das outras escritas.
Devo concluir contudo que há apenas duas qualidades de solidão para qualquer pessoa: a que se deseja e a que se sofre.
Zilda Cardoso
(escritora, convidada do MiL RAZõES...)
http://milrazoes.blogs.sapo.pt/
http://zildacardoso.blogs.sapo.pt/
s. f.
Retiro; lugar solitário; isolamento.
“Solidão, diz o dicionário, é o estado do que está só.
Sabemos que aquele que está só pode sentir-se feliz ou não… de todo. O que leva a pensar que solidão não é apenas o estado de estar só. A palavra que tem graves conotações - de desventura, de mágoa - representa também um sentimento.
Como sentimento, pode querer dizer abandono. Abandono, desistência, repúdio, desamparo… Que será consequência de incapacidade natural de comunicar – de ouvir e de falar com os outros. Ou pode ter outras origens: a desestruturação da família tradicional terá acabado com a afectividade social fácil senão espontânea. Poderá ser questão de temperamento?
As pessoas incapazes de dialogar, supostamente rejeitadas, tornam-se agressivas, transformam o mundo num imenso campo de batalha, onde lutam… distantes, incompreendidas e incapazes de compreender.
O estar só, simplesmente, não quer significar solidão com todo o conhecido cortejo de características negativas, mas pode ser um desejo e uma necessidade, uma vontade e uma satisfação.
E haverá momentos em que as duas situações se associam: queremos estar sós e em silêncio porque precisamos absolutamente disso para o nosso trabalho, mas não queremos prolongar esse estado nem o sentimento (eu abandono os próximos, os outros abandonam-me, logo sentirei a solidão) para além do tempo em que necessitamos de nos concentrar e de trabalhar sem dispersão.
Por isso, digo, verdadeiramente ninguém aprecia estar só, quero dizer, não… 24 horas por dia, 7 dias por semana, a vida toda. Apenas o faremos com alegria e, mesmo assim, durante o tempo necessário, se estivermos obcecados por uma acção que nos preencha inteiramente.
O trabalho, qualquer trabalho, é esforço e pena, mesmo quando dá prazer a quem o realiza e deleita aqueles a quem se destina, como é o caso do trabalho do escritor.
Na sua linguagem radiosa, muito criativa e estimulante, Roland Barthes toca o ponto fundamental quando enuncia a dificuldade principal do escritor moderno – o que o faz sofrer, o que o leva ao isolamento, ou, se quiserem, à solidão. Que é também a da sua escrita.
Tento explicar, seguindo Barthes.
“Como a arte moderna na sua totalidade, a escrita literária contém simultaneamente a alienação da História e o sonho da História: como necessidade atesta o dilaceramento das linguagens... como liberdade é a consciência desse dilaceramento e o próprio esforço que pretende ultrapassá-la”.
O escritor convencido da sua modernidade procura uma ruptura na língua; que é um sistema de valores e uma instituição social e, como tal, não pode ser modificada por nenhum indivíduo. E, de qualquer modo, resiste: foi construída por ninguém para que a comunidade se entendesse. Tudo o que podemos fazer é aprender a manobrá-la.
O que o escritor pretende, aquilo a que se obriga, e que é criar uma linguagem nova e livre, talvez nunca passe de projecto ou de sonho ou de experiência, já que o tumulto que provoca na língua vai tornar a escrita ilegível.
Apesar de tudo e de todos os seus desejos e prazeres, esforça-se por comunicar ainda, a um outro nível, empenha-se em dizer alguma coisa, mesmo que seja outra coisa, mesmo que não seja o que diz, mesmo que seja o que não diz.
Penso que a escrita neste sentido se assemelha à pintura não figurativa e como qualquer outra arte do nosso tempo, corresponde à visão de um mundo desordenado e intrigante e também a "modificações decisivas de mentalidades e de consciências".
No século XIX, os escritores concebiam belas histórias românticas, e davam às suas narrativas a forma tradicional do romance. Os poetas queriam estar sós e tristes porque isso era interessante para a sua obra afectiva e sensível - assim António Nobre, Fernando Pessoa, tantos outros. E havia os génios que tinham a primazia do estado solitário.
Presentemente, pensa-se que as histórias estão todas bem ou mal contadas e os poemas líricos todos ditos, o que importa é o trabalho com a linguagem.
É evidente que o pobre escritor e o poeta contemporâneos têm de utilizar os velhos significantes ligados aos antigos significados porque esses são os signos que constituem a língua que usam. E, do mesmo modo, devem abandonar a literatura que os antecedeu. Mas a sua obra vai tornar-se-á escrita , tal como pretendem, no fim de um trabalho que é provocante e maldoso - o de perverter a sagrada língua da Mãe e dos Avós.
Deve ele usar a língua pura, purificá-la mais, ou perverter a língua? Quer novidades que só surgem com … O escritor é uma pessoa de bem, por isso, se interroga de que modo pode perverter a língua sem a perverter. É nesse duro dilema que a sua consciência se despedaça.
Se, apesar de toda esta actividade considerada criminosa, quer continuar a ser escritor é porque acredita que lhe está prometido um mundo novo, onde a linguagem será asseada e viçosa e brilhante. E não resiste.
trabalho a partir de materiais usados não é exclusivo do escritor, mas ele é o único que utiliza o que, além de pertencer à comunidade, é sua pertença de modo tão privado, como uma qualidade que é sua desde que se conhece, como sua cultura e sua pátria.
Uma das razões do desejo de estar só e de solidão é que esse trabalho torturante implica uma cabeça limpa e em silêncio. E não se trata apenas do silêncio exterior a si.
Por vezes, sinto que tenho de empurrar pensamentos persistentes, impeli-los com força como caixotes pesados, afastá-los do centro da minha mente para ter aí espaço, que sinto como físico, para aqueles com que me quero ocupar.
E a escrita, culpada do afastamento do autor (se a sua linguagem é diferente, ele fica desligado dos outros e é esta a solidão que dói), é ela própria solitária porque é indecifrável, quero dizer, não comunica facilmente, quase desiste de desamparo, (haverá um código que se descobre no momento em que há que inventar outro), mas tem sempre e ainda uma esperança de expressividade, tal como o autor. A escrita quer conservar um sentido vago, um reflexo, uma diminuta recordação do velho código, talvez uma metáfora.
E como as pessoas incapazes de dialogar, a escrita é agressiva na sua luta isolada para ser aceite e entendida.
“Sentindo-se constantemente culpada da sua solidão, ela não deixa de ser por isso uma imaginação ávida de uma felicidade das palavras, precipita-se para uma linguagem sonhada cuja frescura, por uma espécie de antecipação ideal, representa a perfeição de um mundo novo adâmico onde a linguagem já não seria alienada”.
Deveremos ser sensíveis e pesquisar, estudar, tentar conhecer.
Enfim há muitas solidões para o escritor: as dele - a voluntária e desejada (gostava de inventar uma palavra nova) que é um silêncio, exterior; o outro silêncio que afasta os ruídos interiores; a que não deseja e lhe vem das dificuldades de um trabalho criativo e subversivo (a sua escrita – original e difícil de compreender - afasta-o e isola-o dos outros). E a da escrita, a solidão da escrita, ela própria a afastar-se das outras escritas.
Devo concluir contudo que há apenas duas qualidades de solidão para qualquer pessoa: a que se deseja e a que se sofre.
Zilda Cardoso
(escritora, convidada do MiL RAZõES...)
http://milrazoes.blogs.sapo.pt/
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
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