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segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Elefante Acorrentado

7998 elefante








A única maneira de saberes se és capaz, é tentando novamente, de corpo e alma... e com toda a força do teu coração!



O ELEFANTE ACORRENTADO




Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais... mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.



No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua forçam facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.

O mistério continua a parecer-me evidente.

O que é que o prende, então?

Porque é que não foge?



Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio meu sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.

Fiz, então, a pergunta óbvia:

- Se é amestrado, porque é que o acorrentam?

Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente.



Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.

Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta: O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.



Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.

Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro... Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.



Esse elefante, enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.

Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer. E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.



Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força...



(em Deixa-me que te conte, Jorge Bucay)

terça-feira, 5 de abril de 2011

HEIDI «-----»POKEMON

«Há mais ou menos três anos, recebi este e-mail: “Geração HEIDI VS Geração POKEMON GERAÇÃO HEIDITêm hoje 30 anos, ou à volta disso. Chamavam-se Anas "qualquer coisa..." (especialmente Cristina, Filipa, Rita ou Sofia). As outras eram Carla, Sandra ou Sónia. Os rapazes eram João "qualquer coisa..." (geralmente Pedro, Nuno ou Paulo) ou Luís Miguel. Muitas mães eram domésticas, e levantavam-se mais cedo para enfiarem almôndegas à força nos termos da escola. As que não eram andavam muito ocupadas nas manifestações e davam dinheiro para comer na cantina. Principal preocupação dos pais: que os filhos dessem em doutores. Pequeno-almoço: papa de qualquer coisa, se possível com leite gordo e muito açúcar, ou então café com leite. Lanche: uma carcaça mole ensopada de doce de morango ou marmelada. Comida da cantina: carne assada com massa, bife com massa ou jardineira. Levava-se para a escola: uma mochila verde tipo tropa com fechos de cabedal que encaracolavam no segundo dia e com inscrições dos grupos favoritos. Havia uma régua espetada nos dias das aulas de desenho. Pesavam toneladas. Não se conseguia encontrar os livros escolares. Estavam sempre esgotados porque eram os mesmos para toda a gente. Havia quem os forrasse para passarem para o irmão mais novo no ano seguinte. Na papelaria da esquina comprava-se 1 embalagem de marcadores, 1 afia, 1 borracha, 1 esquadro e era suposto que desse para todo o ano. Na ginástica, usava-se sapatilhas brancas e fatos de treino azul escuro, encarnados ou verdes com uma risca branca e uns fechos muito desconfortáveis que faziam uma marreca à frente. Nas aulas: faziam-se cadernos de autógrafos a dizer: "Nas ondas do teu cabelo, ensinaste-me a nadar / Agora que estás careca, ensina-me a patinar". Passavam-se papelinhos. Nas férias: iam para a casa dos avós ou eram deixados à balda. Vestia-se aquilo que viesse à mão. Blusas verde-eléctrico com golas de bico, calças de bombazine com joalheiras. As meninas podiam ter aplicações de malmequeres de pano, vestiam saias de pregas sem nenhuma forma e sapatos rasos com lacinhos. Ambos: pull-overs às riscas, camisolas tricotadas pelas mães dois números acima, kispos (que deveriam durar quatro anos, no mínimo), galochas amarelas e botas caneleiras. Não havia a Zara. Era normal ser-se muito feio com 10 anos. Trocavam-se cromos das Maravilhas da Natureza, da Heidi, do Vicky ou da caderneta do Benfica. Em casa brincava-se: às bonecas, aos carrinhos e com os bonecos dos Strunfs. Jogava-se ao jogo da Glória e ao Monopólio. Batia-se nos irmãos. Com os amigos, andava-se de skate, jogava-se ao elástico, o bate-pé e ao quarto-escuro. Alguns ficavam na rua a tarde toda a jogar à bola e a andar de bicicleta. Lia-se: "A Condessa de Ségur", os "Cinco", as "Gémeas no Colégio de Santa Clara" e a Patrícia, a Mónica, a Mafaldinha e o Astérix. Os rapazes liam o Michel Vaillant. Na televisão via-se a "Abelha Maia", a "Água Viva" e o "Espaço 1999" (em reposição contínua), O Vasco Granja com desenhos animados checoslovacos que ensinavam a atravessar a rua, a Pantera cor-de-rosa e o professor Baltazar. Aos domingos, o Júlio Isidro, o "Sítio do picapau amarelo", "Dallas, o "Homem da Atlântida", os "Marretas" os "Anjos de Charlie" e "Os 3 Dukes". No cinema: "7 noivas para 7 irmãos", "Sissi", "ET", a "Musica no coração" pela 2934484.ª vez, e"Os malucos" em outras fases da sua existência. Ídolos: O Chalana, os Queen, Duran Duran, Billy Idol, Bruce Springsteen, Brian Adams, Sheena Easton e Bob Geldolf. O que se vai recordar: esfregar a sola dos sapatos novos no passeio. A bola da comida de termo no prato. Verdade ou consequência. Os Porcos no Espaço. A tiara de lata da Supermulher, as barbatanas entre os dedos do Patrick Duffy. Os pacotes de Belinhas. GERAÇÃO POKÉMONTêm hoje 10 anos ou por volta disso. Chamam-se Joana, Inês e Filipa. Ou então, Marta, Mariana, Madalena ou Rita, sem falar na Cátia e na Vanessa, claro. Os rapazes são André, Tiago, Bernando, Fábio ou Marco. As mães trabalham até às 8 da noite, passam duas horas paradas no tabuleiro da ponte a ouvir a Rádio Nostalgia ou a pensar na vida e sabem que descongelar é uma arte. Principal preocupação dos pais: que os filhos não dêem em drogados. Pequeno almoço: qualquer coisa que tenha crocante, chocolate e brinde escrito no mesmo pacote. Lanche: donuts, batatas fritas, tiras de milho frito ou snacks de chocolate. Comida da cantina: carne assada com massa, frango com massa ou bife com massa. Levam para a escola uma mochila de rodinhas. Ou, então, mochilas impermeáveis de marca, pretas ou azul-escuro. Continuam a pesar toneladas. Em Setembro vão ao corredor do hipermercado que diz "Regresso às Aulas" e compram milhares de canetas, aguarelas e lápis de cera. Têm coisas sofisticadíssimas dentro do estojo, principalmente as meninas: borrachas com cheiro a tangerina, elásticos e fitas do cabelo, autocolantes minúsculos e pulseiras. Na ginástica, as meninas vestem tops e calças de lycra. Os rapazes, calções. Ambos: ténis com sola fluorescente e que não digam "Made in Indonesia". Nas aulas: jogam Gameboy e mandam mensagens pelo telemóvel. Nas férias: vão para campos de férias moer o juízo dos animadores ou passam 15 dias em Inglaterra a estudar Inglês. Os mais sortudos vão para casa de um amigo. Ambos vestem calças e sweat-shirts com t-shirt por baixo ténis em camurça. As meninas usam brincos, pulseiras, borboletas autocolantes para espetar no pescoço, molas, ganchos, malinhas, gel fluorescente. Há calças especiais para meninas, mais justas em cima. Todos os anos (algumas todos os dias) têm roupa nova. Não é suposto andarem andrajosos, nem no recreio. Conhecem-se as tendências internacionais. Há marcas que usam e outras que só por cima do seu cadáver. Trocam-se cartas do Pokémon e brindes de pacotes de batatas fritas. Quem pode, joga computador e fala num chat da Internet até às 4 da manhã. Vê-se televisão. Bate-se nos irmãos (é bom ver que algumas coisas não mudam). Nunca se brinca na rua porque se pode ser raptado por um pedófilo. O tempo que não se está na escola, está-se no inglês, na natação, no taekondo, no kickboxing ou, então, em casa a olhar para o ar. Lêem: a colecção "Uma aventura" e outros autores portugueses. Os "Arrepios". "O clube das Amigas". Os mais intelectuais já se atiram ao Harry Potter. Na televisão vêem: tudo o que os adultos vêem... Não sei porquê, mas acho que alguma coisa, algures no meio deste processo, não correu bem…”. Apesar de não ser tão radical (pessoalmente acho que as coisas são só diferentes), este texto fez-me lembrar daquilo que eu mais gostava quando era pequeno: Os desenhos animados ao fim-de-semana de manhã. De estar com meia hora de antecedência em frente da televisão, a olhar para a mira, primeiro com estática, depois com música foleira (e ao Domingo a “eucaristia dominical”), para não perder um segundo que fosse... Por uma simples coincidência, descobri pouco tempo depois uma loja que vende brinquedos antigos e entrei por curiosidade. Quando olhei para uma colecção de “PVCês” da Heidi, pensei no que mais gostava quando tinha 10 anos (a seguir aos desenhos animados): Os bonecos das séries da televisão (não sei porquê mas nunca fui um fanático dos carrinhos). Lembrei-me da quantidade de bonecos que tinha e que, quando cheguei à adolescencia, foram todos parar a um primo mais novo ou ao filho da porteira. A seguir à colecção da Heidi seguiram-se outras e este é o resultado dos últimos três anos....» via http://geracaoheidi.blogspot.com/ Pintura http://www.intofineart.com/htmlindexfind/directory-l003.html

domingo, 7 de novembro de 2010

"A idiotice é vital para a felicidade"






"A idiotice é vital para a felicidade.

Pessoas chatas são as que querem ser sempre sisudas, profundas e viscerais. A vida já é um caos, então porque querermos torná-la num tratado cheio de regras? O ideal é ser-se sisudo nos momentos inevitáveis: mortes, separações, dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria-se dos seus próprios defeitos. E de quem acha que os tem. Ignore o que o estúpido do seu chefe lhe disse. Pense assim: quem tem que andar com aquela cara tão feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele.

Milhares de casamentos acabaram não pela falta de amor, dinheiro, sexo, química, mas pura e simplesmente pela falta de idiotice.

Quem lhe disse que é bom partilharmos a vida com alguém que tem conselhos para tudo, soluções sensatas, mas que não se consegue rir quando tropeça?

Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas que não tem a menor ideia de como preencher as horas livres de um fim de semana?

É muito vulgar haver pessoas que se sentem perdidas quando se acabam os problemas.

Desaprenderam de como se brinca. Brincar é bom. Ouviu bem?

Esqueça os que lhe falaram sobre o que é ser-se adulto, ou seja ter maneiras à mesa, não se dizer asneiras, não se ser imaturo, não chorar, não andar descalço à chuva.

Os adultos podem (e devem) contar anedotas, passear nos parques, rirem alto e lamberem as tampas dos iogurtes.

Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "senão" realmente aceitável.

Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.

Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida fazer uma de duas coisas: ficar de mau humor ou sorrir...

O que é verdadeiramente bom é ter-se problemas na nossa cabeça, sorrisos na boca e paz nos nossos corações!

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que caia o pano!"



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"... No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria-se dos seus próprios defeitos. Ignore o que o estúpido do seu chefe lhe disse. Pense assim: quem tem que andar com aquela cara tão feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. E sinta as coisas como realmente são, isto é, passageiras."

Vicente Mais Ou Menos De Souza

http://vdeguaratiba.blogspot.com/

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Nosso Passado Clássico

Search Truus, Bob & Jan too!'s photostream

http://ourclassicpast.blogspot.com/


"Deus não espera de ti senão uma coisa, é que saias de ti próprio e que permitas a Deus que seja Deus em ti."

in Cadernos de Nijinski


http://tenhoestadoalerwhitman.blogspot.com/

sábado, 2 de outubro de 2010

Um bom momento

Un buen tiempo: reflexiones sobre el videoclip. Por Christopher Murray

"Todo tiempo esconde un nuevo tiempo. Una suerte de motor que constantemente funda y refunda las cosas, dando aires de novedad. Por lo general falsa novedad. Simplemente réplicas de lo mismo pero maquilladas de distinta manera. En este caso el tema es el videoclip y su contingencia, que pareciera estar en un punto de bisagra entre un tiempo y otro. Hace un rato, con mi colega Ignacio Rojas le hemos dedicado tiempo a hacer algunos videos y ahora nos invitaron a escribir nuestra opinión sobre la actualidad del formato. Luego de unas cuantas divagaciones dimos con ciertos caminos para compartir.
Los motores que van produciendo cambios en las formas de creación por lo general son cruces y diálogos en distintos niveles: ideológicos, tecnológicos, estéticos, culturales. De todas las aristas de las actuales transformaciones del videoclip, hay dos que merecen particular relevancia. Por una parte, un cambio radical de su aparataje tecnológico en la fase de realización; y por otro, un desplazamiento violento del espacio en donde se desenvuelve como obra.

En cuanto al cambio tecnológico el conflicto está más que masticado y comentado, ya que excede este formato e inunda todas las disciplinas del arte audiovisual. De un momento a otro, las tecnologías necesarias para generar una obra con cierto estándar se volvieron domésticas. La calidad de una imagen que antes era sólo reproducible con una costosa inversión en maquinaria se traspaso a pequeñas cámaras que ya no discriminan entre el espacio casero y el espacio profesional. Así, la posibilidad de generar una obra ingresó a la dimensión cotidiana y se transformó, si se quiere, en un acto tan ligero como escribir tres líneas en la última página de un cuaderno durante un trayecto de bus.

Como segunda arista, quizás menos comentada pero más interesante, está la relación entre el videoclip y su espacio de exhibición. Una obra está innegablemente determinada por el espacio dónde se desenvuelve. El ejemplo de un museo es gráfico: colgar una escoba en la pared de un museo puede ser entendido como obra. Más allá de su técnica o calidad formal, tiene que ver con que se incorpora en un lugar de diálogo con otras obras y su simple presencia se vuelve al menos un comentario, una reacción, una irrupción o una reflexión sobre ese espacio y el arte que determina. En el fondo, un lugar donde la obra es validada en tanto obra. Buena obra o mala obra, al final del día se entiende como tal. De una manera tosca y media forzada se podría hacer un paralelo con el videoclip y su consolidación como formato en las grandes señales televisivas como MTV. Antes del surgimiento de estas cadenas sólo existían antecedentes de un formato que aún no tenía una demarcación precisa. Shows en vivo registrados audiovisualmente, películas cortas con estrellas de la música, obras cinestésicas de arte: todos antecedentes de un formato que recién se instaura y adquiere fuerza con ese nuevo espacio televisivo fundado al inicio de la década de los ‘80. Será ese mismo espacio el que una década más tarde revalidará al videoclip ya no como un simple producto de marketing y difusión, sino también como un producto artístico y autoral. La simple incorporación del nombre de un director en los créditos televisivos será el gesto preciso que marcará esa nueva comprensión.

Ahora bien, mientras los espacios de validación existan la idea de una obra se mantiene regulada por cierta estabilidad. Lo interesante surge cuando ese espacio de validación se fractura, cuando la obra se desplaza y se vuelve huérfana de ese lugar que antes la acogía: quizás ése sea el gran punto de inflexión actual del videoclip. Hace ya un tiempo los canales musicales de relevancia dan la espalda a su propuesta de canales netamente musicales, cargando las parrillas con otros contenidos. Las obras deben lentamente emigrar y buscar un lugar para resituarse. El conducto natural las lleva a las nuevas plataformas de exhibición web por todos conocidas y lideradas por YouTube. Entre el encuentro de las obras y estas plataformas se produce la constitución de un nuevo espacio que presenta diferencias radicales y marca un cuestionamiento profundo al videoclip en su calidad de obra.
La primera interrogante frente a este nuevo espacio es respecto al tipo de diálogo que se genera entre los productos audiovisuales que lo componen, y para ello es necesario identificar al menos dos esferas. La primera es una esfera cotidiana y doméstica, liderada por personas corriente que a través de sus propios medios de registro crean una pieza audiovisual y la difunden. Por otra parte, está la esfera “profesional”, liderada por realizadores que generan obras audiovisuales para la difusión de músicos o las necesidades de cierta industria musical. Sin embargo, esta división que suena lógica en su exposición racional, en la realidad es cada vez más arcaica. La convivencia y colisión constante de estas dos esferas lo único que ha hecho es desdibujar la posibilidad de ese límite y de esa frontera.

La “esfera cotidiana” hace una década tenía sus propios medios de registro, que por muy tecnológicos que fueran jamás serían equiparables a la calidad de las técnicas de registro de la “esfera profesional”. Entonces, la pura imagen ya era una frontera, y los espacios de validación de cada uno eran claros: el televisor del living con un reproductor contra la señal internacional de exhibición. El asunto es que ninguno de estos dos aspectos tiene real vigencia, menos en el ámbito nacional, y algunos síntomas son claros. La aparición del término “video oficial” o, más contemporáneo aún, “video no oficial”, es una terminología usada para intentar forzar gramáticamente una frontera cada vez más tenue, ya que las obras como tal ya no son capaces de sustentarla por sí mismas. Estas dimensiones se encuentran, se fracturan, se cruzan y, quizás lo más interesante, a ratos comienzan a nutrirse e imitarse. Videos hechos en casa que juegan a lograr la hipercalidad, y videos profesionales que intentan replicar la atmósfera hipernaturalista de un video casero. Lo que antes era un diálogo entre dos tipos de piezas audiovisuales a kilómetros de distancia, hoy convive en un mismo espacio de validación, de revalidación y, a ratos, de desvalidación. Con esto una serie de términos de lugar común entran en crisis. De paso el autor y la obra.

Recuerdo una tarde en que estábamos con Ignacio Rojas en una terraza pensando qué hacer para el videoclip “Gran Santiago” de Teleradio Donoso. Queríamos que fuera íntimo, casero y ligero de producir. La interrogante duro días: cómo hacer que un video grabado con una cámara casera, que emulaba el registro cotidiano y que se iba a exhibir por Youtube, no se disolviera con los miles del videos subidos por grupos de amigos que se van a la playa y luego le ponen música a sus momentos para recordarse con ánimos nostálgicos. Queríamos que lo fuera pero no lo fuera del todo. Teníamos que, en cierta forma, lograr la obra. Este año nos ocurrió lo mismo. Para nuestro último video, hecho para Sensorama 19-81, queríamos hacer un registro del interesante fenómeno turístico de Chernobyl. Un pequeño comentario a aquella necesidad de registro a la catástrofe desde una mirada subjetiva. Para ello contratamos un tour algo clandestino y partimos con el resto de los turistas y nuestras dos cámaras. Durante todo el viaje la pregunta era la misma: cómo diferenciarnos de los otros ocho videos que en ese mismo tiempo grababan los turistas con cámaras igual o mejores que las de nosotros, entendiendo que además su espacio de deambulación sería el mismo. De esta forma, cada cierto tiempo la pregunta vuelve a surgir y cada vez con más frecuencia.

Durante estos años alguna de esas búsquedas fueran alcanzadas, otras no tanto, pero las conclusiones a esas interrogantes han sido refrescantes. Todas las divagaciones conducían a cómo defender el autor y la obra en espacios desdibujados que parecieran atentar contra ellos. Pero uno se da cuenta que más que un atentado es una noble y necesaria exigencia del entorno. Hoy en día ya no hay sistemas de protección gratuitos para el autor y la obra en el videoclip. Antes, autor podía ser quien asegura un mínimo de calidad visual. Antes, obra era la que lograba penetrar en un espacio de validación televisiva y desde ahí defenderse como tal. En los tiempos actuales, cuando cada vez quedan menos de esas protecciones para el autor y la obra, el camino es agudizar las genuinas armas de combate y diferenciación: el relato, el lenguaje, la idea y la reflexión. En ese sentido no es la disolución del autor ni de la obra, sino la exigencia para volver a fundarla con más fuerza. Desde ese lugar surge la urgencia y la motivación para ir lentamente perfeccionando la marcha. Es un buen tiempo para realizar.

Christopher Murray (1985) es director audiovisual de la Universidad Católica de Chile. Junto a Ignacio Rojas creó la productora El Buen Tiempo, con la que han realizado videoclips para los grupos nacionales Teleradio Donoso, Leo Quinteros, Gepe y Sensorama 19-81, entre otros. “Manuel de Ribera”, su primer largometraje (codirigido con Pablo Carrera), fue ganador de la Competencia de Cine Chileno en la última versión del Santiago Festival Internacional de Cine (SANFIC).
"

“El cliente” – Sensorama 19-81, por El buen tiempo
http://super45.net/articulos/un-buen-tiempo-reflexiones-sobre-el-videoclip-por-cristopher-murray/



segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de «struggle» que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.
Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas sulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'


Agostinho da Silva
Portugal
[1906-1996]
Filósofo/Poeta/Ensaísta

http://www.citador.pt/pensar.php?pensamentos=Agostinho_da_Silva&op=7&author=20238

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Vamos falar de Solidão?

solidão
s. f.
Retiro; lugar solitário; isolamento.



“Solidão, diz o dicionário, é o estado do que está só.

Sabemos que aquele que está só pode sentir-se feliz ou não… de todo. O que leva a pensar que solidão não é apenas o estado de estar só. A palavra que tem graves conotações - de desventura, de mágoa - representa também um sentimento.

Como sentimento, pode querer dizer abandono. Abandono, desistência, repúdio, desamparo… Que será consequência de incapacidade natural de comunicar – de ouvir e de falar com os outros. Ou pode ter outras origens: a desestruturação da família tradicional terá acabado com a afectividade social fácil senão espontânea. Poderá ser questão de temperamento?

As pessoas incapazes de dialogar, supostamente rejeitadas, tornam-se agressivas, transformam o mundo num imenso campo de batalha, onde lutam… distantes, incompreendidas e incapazes de compreender.

O estar só, simplesmente, não quer significar solidão com todo o conhecido cortejo de características negativas, mas pode ser um desejo e uma necessidade, uma vontade e uma satisfação.

E haverá momentos em que as duas situações se associam: queremos estar sós e em silêncio porque precisamos absolutamente disso para o nosso trabalho, mas não queremos prolongar esse estado nem o sentimento (eu abandono os próximos, os outros abandonam-me, logo sentirei a solidão) para além do tempo em que necessitamos de nos concentrar e de trabalhar sem dispersão.

Por isso, digo, verdadeiramente ninguém aprecia estar só, quero dizer, não… 24 horas por dia, 7 dias por semana, a vida toda. Apenas o faremos com alegria e, mesmo assim, durante o tempo necessário, se estivermos obcecados por uma acção que nos preencha inteiramente.

O trabalho, qualquer trabalho, é esforço e pena, mesmo quando dá prazer a quem o realiza e deleita aqueles a quem se destina, como é o caso do trabalho do escritor.


Na sua linguagem radiosa, muito criativa e estimulante, Roland Barthes toca o ponto fundamental quando enuncia a dificuldade principal do escritor moderno – o que o faz sofrer, o que o leva ao isolamento, ou, se quiserem, à solidão. Que é também a da sua escrita.

Tento explicar, seguindo Barthes.

“Como a arte moderna na sua totalidade, a escrita literária contém simultaneamente a alienação da História e o sonho da História: como necessidade atesta o dilaceramento das linguagens... como liberdade é a consciência desse dilaceramento e o próprio esforço que pretende ultrapassá-la”.

O escritor convencido da sua modernidade procura uma ruptura na língua; que é um sistema de valores e uma instituição social e, como tal, não pode ser modificada por nenhum indivíduo. E, de qualquer modo, resiste: foi construída por ninguém para que a comunidade se entendesse. Tudo o que podemos fazer é aprender a manobrá-la.

O que o escritor pretende, aquilo a que se obriga, e que é criar uma linguagem nova e livre, talvez nunca passe de projecto ou de sonho ou de experiência, já que o tumulto que provoca na língua vai tornar a escrita ilegível.

Apesar de tudo e de todos os seus desejos e prazeres, esforça-se por comunicar ainda, a um outro nível, empenha-se em dizer alguma coisa, mesmo que seja outra coisa, mesmo que não seja o que diz, mesmo que seja o que não diz.

Penso que a escrita neste sentido se assemelha à pintura não figurativa e como qualquer outra arte do nosso tempo, corresponde à visão de um mundo desordenado e intrigante e também a "modificações decisivas de mentalidades e de consciências".

No século XIX, os escritores concebiam belas histórias românticas, e davam às suas narrativas a forma tradicional do romance. Os poetas queriam estar sós e tristes porque isso era interessante para a sua obra afectiva e sensível - assim António Nobre, Fernando Pessoa, tantos outros. E havia os génios que tinham a primazia do estado solitário.

Presentemente, pensa-se que as histórias estão todas bem ou mal contadas e os poemas líricos todos ditos, o que importa é o trabalho com a linguagem.

É evidente que o pobre escritor e o poeta contemporâneos têm de utilizar os velhos significantes ligados aos antigos significados porque esses são os signos que constituem a língua que usam. E, do mesmo modo, devem abandonar a literatura que os antecedeu. Mas a sua obra vai tornar-se-á escrita , tal como pretendem, no fim de um trabalho que é provocante e maldoso - o de perverter a sagrada língua da Mãe e dos Avós.

Deve ele usar a língua pura, purificá-la mais, ou perverter a língua? Quer novidades que só surgem com … O escritor é uma pessoa de bem, por isso, se interroga de que modo pode perverter a língua sem a perverter. É nesse duro dilema que a sua consciência se despedaça.

Se, apesar de toda esta actividade considerada criminosa, quer continuar a ser escritor é porque acredita que lhe está prometido um mundo novo, onde a linguagem será asseada e viçosa e brilhante. E não resiste.
trabalho a partir de materiais usados não é exclusivo do escritor, mas ele é o único que utiliza o que, além de pertencer à comunidade, é sua pertença de modo tão privado, como uma qualidade que é sua desde que se conhece, como sua cultura e sua pátria.
Uma das razões do desejo de estar só e de solidão é que esse trabalho torturante implica uma cabeça limpa e em silêncio. E não se trata apenas do silêncio exterior a si.

Por vezes, sinto que tenho de empurrar pensamentos persistentes, impeli-los com força como caixotes pesados, afastá-los do centro da minha mente para ter aí espaço, que sinto como físico, para aqueles com que me quero ocupar.

E a escrita, culpada do afastamento do autor (se a sua linguagem é diferente, ele fica desligado dos outros e é esta a solidão que dói), é ela própria solitária porque é indecifrável, quero dizer, não comunica facilmente, quase desiste de desamparo, (haverá um código que se descobre no momento em que há que inventar outro), mas tem sempre e ainda uma esperança de expressividade, tal como o autor. A escrita quer conservar um sentido vago, um reflexo, uma diminuta recordação do velho código, talvez uma metáfora.

E como as pessoas incapazes de dialogar, a escrita é agressiva na sua luta isolada para ser aceite e entendida.

“Sentindo-se constantemente culpada da sua solidão, ela não deixa de ser por isso uma imaginação ávida de uma felicidade das palavras, precipita-se para uma linguagem sonhada cuja frescura, por uma espécie de antecipação ideal, representa a perfeição de um mundo novo adâmico onde a linguagem já não seria alienada”.

Deveremos ser sensíveis e pesquisar, estudar, tentar conhecer.

Enfim há muitas solidões para o escritor: as dele - a voluntária e desejada (gostava de inventar uma palavra nova) que é um silêncio, exterior; o outro silêncio que afasta os ruídos interiores; a que não deseja e lhe vem das dificuldades de um trabalho criativo e subversivo (a sua escrita – original e difícil de compreender - afasta-o e isola-o dos outros). E a da escrita, a solidão da escrita, ela própria a afastar-se das outras escritas.

Devo concluir contudo que há apenas duas qualidades de solidão para qualquer pessoa: a que se deseja e a que se sofre.

Zilda Cardoso
(escritora, convidada do MiL RAZõES...)

http://milrazoes.blogs.sapo.pt/



http://zildacardoso.blogs.sapo.pt/